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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

- Mas o senhor não me abandonou pelo amor de Adelaide e sim pelo seu dote, um mesquinho dote de trinta mil cruzeiros! Eis o que não tinha o direito de fazer, e que jamais lhe podia perdoar! Desprezasse-me embora, mas não descesse da altura em que o havia colocado dentro de minha alma. Eu tinha um ídolo; o senhor abateu-o de seu pedestal, e atirou-o no pó. Essa degradação do homem a quem eu adorava, eis o seu crime; a sociedade não tem leis para puni-lo, mas há um remorso para ele. Não se assassina assim um coração que Deus criou para amar, incutindo-lhe a descrença e o ódio. 

Seixas que tinha curvado a fronte, ergueu-a de novo, e fitou os olhos na moça. Conservava ainda as feições contraídas e gotas de suor na raiz dos seus belos cabelos negros. 

- A riqueza que Deus me concedeu chegou já tarde; nem ao menos permitiu-me o prazer da ilusão, que tem as mulheres enganadas. Quando a recebi, já conhecia o mindo e suas misérias; já sabia que a moça rica é um arranjo e não uma esposa; pois bem, disse eu, essa riqueza servirá para dar-me a única satisfação que ainda posso ter nesse mundo. Mostrar a esse homem que não soube me compreender, que mulher o amava, e que alma perdeu. Entretanto ainda eu afagava uma esperança. Se ele recusa nobremente a proposta aviltante, eu irei lançar-me a seus pés. Suplicar-lhe-ei que aceite a minha riqueza, que a dissipe se quiser; consinta-me que eu o ame. Esta última consolação, o senhor a arrebatou. Que me restava? Outrora atava-se o cadáver ao homicida, para expiação da culpa; o senhor matou-me o coração; era justo que o prendesse ao despojo de sua vítima. Mas não desespere, o suplício não pode ser longo: este constante martírio a que estamos condenados acabará por extinguir-me o último alento; o senhor ficará livre e rico. 

Proferidas as últimas palavras com um acento indefinível de irrisão, a moça tirou o papel que trazia passado à cinta, e abriu-o diante dos olhos de Seixas. Era um cheque de oitenta mil cruzeiros sobre o Banco do Brasil. 

- É tempo de concluir o mercado. Dos cem mil cruzeiros, em que o senhor avaliouse, já recebeu vinte mil; aqui tem os oitenta mil que lhe faltavam. Estamos quites, e posso chamá-lo meu; meu marido, pois é este o nome de convenção. 

A moça estendeu o papel que sua mão crispada amarrotava convulsamente. Seixas permaneceu imóvel como uma estátua; apenas duas plicas profundas sulcaram-lhe as faces desde o canto dos olhos até a comissura dos lábios. 

Afinal o papel escapou-lhe dos dedos trêmulos da moça e caiu sobre o tapete aos pés de Fernando. 

Seguiu-se um momento de silêncio ou antes de estupor. Aurélia irritava-se contra a invencível mudez de Seixas, e talvez a atribuía a uma cínica insensibilidade moral. Pensava em exacerbar os nobres estímulos de um homem ainda incapaz de reabilitar-se da fragilidade a que fora arrastado, e achava um indivíduo tão embotado já em seu pudor que não se revoltava contra a maior das humilhações. 

Aurélia soltou dos lábios um estrídulo, antes do que um sorriso. 

- Agora podemos continuar nossa comédia, para divertir-nos. É melhor do que estarmos aqui mudos em face um do outro. Tome a sua posição, meu marido; ajoelhe-se aqui a meus pés, e venha dar-me seu primeiro beijo de amor... Porque o senhor ama-me, não é verdade, e nunca amou outra mulher senão a mim?... 

Seixas ergueu-se; a sua voz afinal desprendeu-se dos lábios com calma, porém fremente: 

- Não; não a amo. 

- Ah! 

- É verdade que a amei; mas a senhora acaba de esmagar a seus pés esse amor; aí fica ele para sempre sepultado na abjeção a que o arremessou. Eu só a amaria agora, se a quisesse insultar; pois que maior afronta pode fazer uma senhora, um miserável, do que marcando-a com o estigma de sua paixão. Mas fique tranqüila; ainda quando me dominasse a cólera, que não sinto, há uma vingança que não teria forças para exercer; é essa de amá-la. 

Aurélia ergueu-se impetuosamente. 

- Então enganei-me? Exclamou a moça com estranho arrebatamento. O senhor amame sinceramente e não se casou comigo por interesse? 

Seixas demorou um instante a olhar no semblante da moça, que estava suspensa de seus lábios, para beber-lhe as palavras: 

- Não, senhora, não enganou-se, disse afinal com o mesmo tom frio e inflexível. Vendi-me; pertenço-lhe. A senhora teve o mau gosto de comprar um marido aviltado; aqui o tem como o desejou. Podia ter feito de um caráter, talvez gasto pela educação, um homem de bem que se enobrecesse com sua afeição; preferiu um escravo branco; estava em seu direito, pagava com seu dinheiro, e pagava generosamente. Esse escravo aqui o tem; é seu marido, porém nada mais do que seu marido! 

O rubor afogueou as faces de Aurélia, ouvindo essa palavra acentuada pelo sarcasmo de Seixas. 

- Ajustei-me por cem mil cruzeiros, continuou Fernando; foi pouco, mas o mercado está concluído. Recebi como sinal da compra vinte mil cruzeiros; falta-me arrecadar o resto do preço, que a senhora acaba de pagar-me. 

(continua...)

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