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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

O que porém dava a essa perspectiva um aspecto fascinador, era sobretudo a diáfana limpidez do ar e uma plenitude de luz que estofava os objetos, cobrindo-os com uma espécie de áurea expansão. Não se podia chamar resplendor, porque não reverberava nem deslumbrava os olhos; era antes uma pubescência, doce e aveludada, onde se engolfavam os olhos com delícia. 

Derramaram-se os passeantes pela borda da esplanada para melhor apreciar os vários pontos de perspectiva, e cruzaram-se as observações de toda a casta, e as réplicas ou risos que elas provocavam. 

- É o reino das fadas, disse Fábio a D. Guilhermina, mostrando-lhe o admirável panorama. Está a senhora nos seus domínios. 

- Se assim fosse, eu encantava-o já, respondeu a moça a sorrir.

- Em quê? 

- Nesta flor! tornou mostrando-lhe uma violeta que prendeu ao seio. A esse tempo dizia o Guimarães: 

- Não sei o que acham demais neste lugar! Abalar-se a gente para ver morros trepados por cima doutros! 

- Pretexto para o almoço, homem, disse o Bastos, a quem o passeio afiara o apetite; contando que não se demore o farnel. 

Era o nosso corretor desses homens cujo estômago professa a maior independência em relação ao coração e à cabeça: imagem de uma república bem organizada, com perfeito equilíbrio dos poderes. 

- Fairy!... Fairy! exclamava entretanto Mrs. Trowshy, estatelada diante daquela magnificência.

- Oh! Guimarães! gritou um dos elegantes da comitiva.

- Que é lá? 

- Eras capaz de virar uma cambalhota daqui no Jardim?

- Abraçado contigo. 

No seu entusiasmo travou a inglesa do braço do Benício, que estava engomando com a mão a calça amarrotada pelo burro. 

- Look, Sir, how beautiful! 

- É Botafogo, sim, senhora! respondeu o homem sem desconcertar-se. 

Á parte, o visconde parecia enlevado ante a cena maravilhosa; tal concentração de espírito mostrava sua atitude contemplativa. 

- Está admirando, Sr. Visconde? perguntou-lhe Guida. 

- Estava parafusando uma coisa. 

- Não se pode saber? insistiu a moça com malícia. 

- O terreno que Deus desperdiçou para fazer mar! 

Guida voltou-se com um sorriso para Ricardo que escutara o diálogo:

- É dos meus! 

Chegaram à “Mesa” os copeiros com os petrechos do almoço, que formavam a carga de um burro. O Bastos e o Benício foram dos primeiros a avistar o farnel e deram as alvíssaras aos mais. 

Dirigiram-se então os convidados ao bambuzal, onde os esperava um lauto almoço. 

O visconde da Aljuba não perdeu seu tempo. Enquanto devorava o improvisado almoço, ia resmoendo os seus cálculos. Anexara-se à passeata, com surpresa de todos, unicamente para julgar por si da posição do Ricardo em relação a Guida. 

Os rapazes, que não podiam nem remotamente perscrutar a intenção do refinado usuário, cuidaram que estava apaixonado por Mrs. Trowshy, e pretendia disputá-la ao Sr. Benício, o cavaleiro servente da inglesa. 

O velho deixava-os rir à sua vontade, e ia lançando na memória, como em um borrador, as observações que depois contava tirar a limpo. 

Assim não lhe escapou o afastamento que de repente, depois da disparada, havia entre Ricardo e a moça. 

- Arrufos! dizia consigo o visconde polvilhando de pimenta-do-reino os camarões. Isto arde, mas abre o apetite! E ria-se por dentro da pachouchada. 

Depois do almoço, cada um quis deixar nos bambus uma lembrança do passeio. Escreveram uns o nome e a data; outros a simples inicial; D. Guilhermina foi desse número, e Fábio cercou o dístico de um traço fingindo um coração espetado em um F. 

Durante esse tempo o Sr. Benício, depois de ter fornecido à direita e à esquerda canivetes e tesouras para os dísticos, à sorrelfa tirava os arreios da baia e passava-os para o machinho da carga, sem que os copeiros, ocupados a devastar as ruínas do almoço, dessem pela barganha. 

Ricardo gravou o nome da Luísa, sua irmã, talvez na esperança de pungir com aquela recordação a alma de Fábio; mas este nem se apercebia de sua presença ali, tão enlevado o tinham os olhos da mulher do Barros. 

O visconde, armando-se de um garfo, marcou um bambu com um enorme cifrão; o que inspirou a Guida um enigma pitoresco. Com um grampo desenhou a moça na casca verde da taquara um cifrão dando braço a um xis rechonchudo, o que todos aplaudiram com risadas descobrindo a alusão aos requebros da inglesa com o usurário. 

Às onze horas montaram a cavalo para a volta. Ricardo, a pretexto de arranjar os arreios do “Galgo”, deixou-se ficar, resolvido a separar-se da companhia, tomando pelo caminho de baixo. 

 

XVIII 

 

Quando supôs que o farrancho devia ir longe, Ricardo montou no “Galgo” e seguiu passo. 

(continua...)

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