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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Acaso pressentia ela que não podia dar-lhes maior júbilo e felicidade do que essa de confiar-se ao seu amor? Talvez; mas era sobretudo efeito de índole. Sua alma delicada e altiva tinha um recato natural, que a resguardava, e impedia de abrir o íntimo seio aos olhos, ainda mesmo dos que mais queria. 

D. Flor afligira-se quando soube do desaparecimento da novilha; mas essa mágoa já se teria desvanecido, se não encontrasse alimento. 

Quando um pesar qualquer nos aflige e, desprendendo o espírito das impressões exteriores, obriga-o ao recolho, muitas reminiscências e pensamentos sopitados na memória adormecida surgem aos olhos d’alma então voltados para o íntimo. 

Assim aconteceu À donzela. O fato ainda recente da revolta de Arnaldo foi o primeiro que despertou em seu espírito e absorveu-lhe as cismas. 

O sertanejo era seu colaço e camarada de meninice. Embora depois de certa época suas existências, a princípio unidas pela intimidade infantil, se tivessem apartado na adolescência, que as chamava cada uma ao seu diverso destino, todavia ela ainda conservava ao seu companheiro a amizade que lhe consagrara em criança. Demais, bastariam para incomodá-la, a aflição que essa desavença causava à Justa, sua mãe de leite, a quem ela muito queria, e a desconfiança do desgôsto que seu pai sentira com a ingratidão do filho do Louredo, criado por êle, e tão estimado sempre. 

Destas mágoas recentes, o espírito da donzela remontando insensivelmente aos acontecimentos anteriores, recordou a visita de Marcos Fragoso com seus amigos à Oiticica; e daí enleou-se pelas reminiscências ainda vivas de sua viagem ao Recife e das festas que lá assistira. 

Então, já desvanecida a surpresa que essas novidades deviam causar-lhe, a ela filha do sertão, acudiram-lhe à mente idéias envôltas e ignotas, que sua imaginação cândida não sabia formular, e lhas apresentava apenas em vago esbôço. 

Muitas daquelas donzelas, e das mais formosas, que haviam concorrido Às festas, tinham seus cavalheiros que se nesses jogos as tomavam para rainhas de suas façanhas e gentilezas, antes e fora daí lhes rendiam o culto de seu afeto e viviam cativos de sua beleza. De algumas soubera que já eram noivas, e de outras que não tardariam a ser pedidas. 

Teria ela, Flor, também algum dia o seu cavalheiro, que fizesse proezas para merecer-lhe um olhar? Possuiria o belo parecer e outras prendas do Marcos Fragoso? Ou o excederia no garbo da pessoa e gentileza das ações? 

Depois imaginava que êsse cavalheiro, ainda seu desconhecido, chegava a Oiticica; ela o via falando na sala com seu pai; era elegante, vestido a primor, e de uma nobreza de gesto como só a podiam ter os reis; mas não lhe via o rosto. Então seu pai a chamava; as palavras que lhe dizia e o mais que se passava, nunca o adivinhou seu espírito que neste momento perdia-se em um tropel de confusos pensamentos, enquanto leve rubor acendia-lhe a nívea tez. 

Alina também estava triste; mas as suas próprias mágoas a preocupavam menos do que a melancolia cismadora de sua companheira. A órfã, ao contrário da filha do capitão-mór, tinha uma dessas naturezas que não sabem viver em si e para si, mas carecem de transportar-se para outras, em que se difundam, e de quem recebam o estímulo que não encontram no próprio âmago. 

Ao inverso das parasitas, que absorvem a seiva estranha e nutrem-se dela, estas naturezas pródigas transmitem a sua substância. São como as flores privadas de estigma, que só viçam para comunicar o seu pólen ao seio das outras, e como estas não dão fruto na própria árvore, também elas não sabem sentir senão as alegrias e as tristezas dos seres a quem amam. 

Alina chegando ao terreiro ainda vira o Inácio Góis e perguntou a D. Flor: 

— Que disse o vaqueiro, Flor? 

— Nada, respondeu concisamente a outra.

— Então não há esperança? 

D. Flor respondeu com a cabeça, fazendo gesto negativo. 

— Coitada da Bonina! murmurou a órfã. 

E mais pesarosa da perda da novilha do que a própria dona, levou a mão aos olhos para esmagar as lágrimas que borvulhavam; e ficou-se a olhar para a companheira, buscando adicinharlhe os tristes pensamentos para repassar-se deles. 

Logo que as duas meninas se haviam sentado nos bancos da Oiticica, o Agrela que as vira de esguelha dirigirem-se para aquele ponto, achou jeito e tornar ambulatória a sua prática, e principiou a percorrer o terreiro ao lado do capelão. 

Sua direção aparente era o muro ensosso, espécie de barbacã, levantado em volta do terreiro. Tinha êle, porém, uma linha objetiva, que seu olhar indicava a cada instante fitando-se rápido, mas veemente, no formoso semblante de Alina. 

Porisso a cada volta, a linha declinava, formando um ziguezague, que não tardava cortar em uma de suas projeções a área coberta pela copa frondosa da oiticica. Padre Teles, que talvez por indícios anteriores percebera a estratégia do ajudante, prestava-se de boa vontade à manobra; mas com disfarce para não acanhar o rapaz. 

(continua...)

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