Por José de Alencar (1870)
Por isso tinha passado a mão ao laço no momento de partir; mas percebendo agora na cavaleira o intento de saltar do animal receou ver burlado seu plano. Podia, no momento de alcançar ele a mula, ter já saltado a moça que ficaria então esmagada pelas patas do alazão. Também no atirar o laço via o perigo de esbarrar a mula bruscamente na ocasião de pular a cavaleira, a qual perdendo o equilíbrio, sucumbiria aos coices do animal enfurecido.
Nesta perplexidade, ainda mais se complicou o caso com um grito que feriu o ouvido do gaúcho, reboando pela campanha:
— Salta, Catita!
Era a voz estrepitosa de Lucas Fernandes que, advertido pelo grito do preto, transmontara a galope, em companhia de Félix, uma pequena coxilha, e vendo o que passava, compreendera o perigo da filha e a única esperança de salvação que restava.
— À direita! acrescentara Félix.
Um movimento que fez a moça para voltar o rosto e um rápido aceno da mão indicavam que ela ouvira a advertência do pai, e apenas aguardava um momento oportuno para seguir seu conselho. Ao Canho não escapou esta muda resposta, que pôs o remate à sua contrariedade.
— Não salte! exclamou ele em tom resoluto.
Ouvindo a recomendação do gaúcho em contrário à sua ordem, o Lucas perfilou-se na sela e arrancou do peito um berro formidável:
— Salta, com mil demônios!
— Não, replicou o gaúcho imperiosamente.
Catita, voltando a custo o rosto, viu de través Manuel que estava apenas a três braças de distância, e compreendeu que ele vinha em seu auxílio. Revoltou-se a vaidade da moreninha contra esse importuno. Antes despenhar-se do precipício, do que dever a salvação a alguém.
Estaria a moça presa já da vertigem dessa corrida veloz, ou era a petulância natural de seu ânimo juvenil, que a fazia brincar assim com a morte? Por uma ou outra causa ela, que um instante concebera a esperança de refrear a mula, castigou-a de novo com força. O animal, já colérico, exasperou-se, arrancando como uma péla.
Mas o alazão, sentindo a leve pressão dos joelhos do Canho, projetou-se como a haste de uma lança arremessada com vigor; e em dois tempos alongou-se pelo flanco da mula, disposto a espedaçar-lhe a cabeça ao menor sinal do gaúcho.
Deitando-se sobre o pescoço do cavalo para tomar o freio à mula, sentiu Manuel uma doce pressão na ilharga, ao mesmo tempo que ressoava a seus ouvidos uma risada zombeteira. Catita estava sentada na garupa do alazão, com a mão passada pela cintura do gaúcho.
Como isto acontecera, ninguém poderá compreender, tão rápidos e imprevistos foram os movimentos da moça.
Convencida do risco de atirar-se do animal abaixo, Catita hesitava quando percebeu Manuel. Precipitando a corrida da mula para evitar que o gaúcho a salvasse, ela não pretendia sacrificar-se como parecera. Tinha avistado adiante uma árvore, sob cujos ramos ia passar.
Foi ali que Manuel alcançou a mula. Já suspensa a um dos galhos a moça sentou-se tranqüilamente nas ancas do cavalo, e ali ficou de garupa, como naquele tempo era usa viajarem as mulheres que tinham medo de montar.
Com a surpresa que sofreu, Manuel esteve um instante perplexo, não sabendo a que atender, se à moça que ria-se ainda, se à mula que fugia sempre. Foi quando o animal com as mãos já erguidas sobre o precipício ia despenhar-se, que Manuel, atirando o laço, o suspendeu em meio da queda.
Para isso o gaúcho se lançara do cavalo abaixo; e apoiando a trança da árvore, imprimira tamanho arranco ao laço que a mula, cingida pelos peitos, rodou, estendendo o costado pelo chão.
Nisso chegaram Lucas e Félix; em um momento estava a mula subjugada pelos dois viajantes, que, depois de tirados os arreios, meteram-lhe o rebenque de rijo.
— Deixa-te de partes, mula! dizia o Félix.
Catita tinha saltado da garupa do alazão, e observava de semblante risonho a luta dos três homens com o animal. Havia em seu rosto gentil uns assomos de orgulho satisfeito, por ter escapado, incólume e sem auxílio, ao perigo.
— Que tal a rapariga, hein? perguntou o Lucas Fernandes.
— Sacudida, como ela só! respondeu o rapaz. Pensei que não agüentasse.
— E eu também! Caramba!
— Ora, papai! disse a moça com um ligeiro muxoxo. Não caio por tão pouco; nem preciso que me segurem para saltar da sela.
Estas palavras foram ditas com direção ao Canho, que enrolava o laço tranqüilamente. Acompanhando o olhar da filha, reparou Lucas no taciturno gaúcho.
— Então o senhor não queria que a menina saltasse, camarada? disse o furriel de milícia com um riso cheio.
— Não, respondeu concisamente o gaúcho.
— E por que razão?
Manuel encolheu os ombros.
— Ele tinha medo que eu caísse debaixo dos pés do alazão. Papai não o viu correndo para agarrar a mula pelo freio; mas quis mostrar que também sou gauchinha! Saltei-lhe na garupa!
— Deveras?
— Tal e qual! disse Manuel sorrindo.
— Assim, rapariga.
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.