Por Machado de Assis (1876)
Estácio não pôde resistir à intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe dizer. Saiu aturdido, desconsolado, colérico. Na rua e na chácara, ia pensando na cena daquela última hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a inteligência, chamava em seu auxílio todas as forças da realidade; olhava para o chão, suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão tornou pé no meio de lembranças tão desconcertadas, ele viu claramente o resultado de suas ações: perdia um amigo de longos anos e abdicava a direção da família, pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se esta lhe agradecesse a resistência, Estácio dar-se-ia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que ele conspirara? este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a aprovação de Helena, pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passara em casa de Melchior. Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo o que ele fizera.
Mendonça é já o fruto proibido, concluiu a moça; começo a amá-lo. Se ainda assim me obrigar a desistir do casamento, adorá-lo-ei.
Chegamos ao capricho! exclamou ele; é o fundo do coração de todas as mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena e escreveu um bilhetinho. A tinta secou primeiro que duas grossas lágrimas caídas no papel; mas as lágrimas secaram também. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostrá-lo ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estácio ia ter com ela. Tinha resolução assentada. Uma vez que a irmã aceitava de boa feição o casamento, não havia mais que o aprovar e celebrar. Encontraram-se na porta; Estácio recuou para dentro.
Helena, disse ele, faça-se a tua vontade.
Consente?
Estácio fez um gesto afirmativo.
Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará aqui depois do que se passou. Peço-lhe a remessa dêste bilhete.
Estácio abriu o bilhete; continha estas poucas palavras: “Venha hoje a Andaraí; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.” Cinco minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escrito e o que não estava. Helena desarmava os escrúpulos de Mendonça, tirando à futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
Aprova? perguntou a moça.
Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha cá, que te cases com ele, que nos fujas? Não te basta a família, a afeição de nossa tia, a minha própria afeição? Estes meses de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pés do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma coisa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa família completou-se; nossos corações receberam um sentimento último. Pensávamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fora não ter vindo!
Helena quis responder, a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe, ainda uma vez, que o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqüilo e resoluto a dar um golpe decisivo. Estácio rendeu-se, antes que ele falasse.
Padre-mestre, disse o moço logo que o viu, a reflexão venceu-me; faça-se a vontade de todos.
Fala de coração?
De coração.
Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro de uma religião que condena o orgulho. Não há de ser em curar as feridas de um amigo; vá ter com o seu amigo; traga-o a esta casa, como irmão.
Irei amanhã.
Não; vá hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estácio foi dali vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de Helena, meteu-o na algibeira para entregá-lo ele próprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez um gesto para rasgá-lo, conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, à semelhança de mariposa indiscreta, parecia atraída pela luz; resistiu, resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete à vela e queimou-o.
CAPÍTULO XX
A visita de Estácio não causou nenhum espanto a Mendonça; ele a esperava com a confiança das índoles ingênuas e avessas ao ódio. Não era crível que um amigo de longos anos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estácio procurou o pretendente de Helena.
Entrou naturalmente em casa de Mendonça, sem expansão nem secura. A entrevista foi breve e cordial; houveram-se os dois com afetuosa dignidade. Estácio explicou os escrúpulos, declarou-se contente com a aliança. O contentamento podia existir; todavia, a manifestação foi parca e seca. Houve mais calor e expansão quando ele lhe pediu que desse vida feliz à irmã.
Será para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse ele. Não tivemos o mesmo berço, vivemos nossa infância debaixo de teto diferente, não aprendemos a falar pelos lábios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pai recomendou-a à nossa família, e ela correspondeu ao sentimento que ditou essa última vontade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.