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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Evidentemente havia para o noivo da prima Anica verdadeiro perigo na observação repetida daquelas moças tão resplendentes de inocência e de candura; delas pois desviei a minha luneta mágica, e com o coração ainda palpitante de ternura, de enlevo, quase de entusiasmo, fixei-a no rosto de uma jovem que estava sentada perto de mim.

Cabelos castanhos e ondeantes, rosto oval e de cor pálida com uns longos roxos nas faces, olhos pretos e vivos, dentes brancos iguais e em continuo rir de continuo à mostra, o peito e os braços nus e os seios e as axilas por metade fora do vestido, mãos de vadia, cintura fina, os pés calçando botinas à Benoiton e atirados em exposição, palavra solta e louca, modos descomedidos, mobilidade febril. provocação e petulância,—eis a jovem em quem eu fixara a minha luneta mágica e que não podia contar mais de vinte anos de idade.

Era pois moça e bonita; mas trazia no olhar, no falar, no rir, no proceder o letreiro da devassidão; causou-me dolorosa impressão; tive dó daquela mocidade pervertida.

Entre mim e ela estava sentado um velho de sessenta anos pelo menos, que todo impertigado a miúdo lhe falava ao ouvido, como o fazia também pelo outro lado um mancebo que evidentemente devia ser mais atendido.

A rapariga mostrava-se alegre e folgazona, e sem dúvida ria-se do velho, quando escutava os segredos do moço.

Animei-me a perguntar em voz baixa ao velho:

—Quem é esta... mulher?

—Não a conhece?... disse-me ele admirado.

—Confesso que não.

—Pois não conhece a Esmeralda?

—Esmeralda? E o seu nome de batismo?

—Quase todas as raparigas da classe desta adotam ou recebem o seu nome de guerra; a moça, que está vendo a meu lado, chama-se Esmeralda pela paixão e preferência que lhe merecem as pedras desse nome: observe o adereço que ela traz ao pescoço.

—Com efeito é riquíssimo.

—Sei bem o que ele vale: custou-me os olhos da cara.

Voltei-me com repugnância, desviando outra vez a minha luneta mágica da figura daquela mulher desgraçada, e do rosto do velho ridículo e parvo.

Pouco depois mudei de lugar e encontrei-me com aquele mancebo meu vizinho que prazenteiro, gracejador e sempre jovial, tão indigno da minha amizade me parecera julgado pela visão do mal.

Já desconfiado dessa visão caluniadora, observei-o primeiro a alguma distância por mais de três minutos, e reconheci a perfídia da minha. primeira luneta: o meu jovem amigo era o caráter mais igual, mais nobre e distinto que se podia imaginar.

Fui ter com ele, que me festejou com expansão de verdadeira alegria.

—No Alcasar! ! ! exclamou enfim; tu no Alcasar! . . .

—E verdade; começo a viver.

—Estás apenas meio perdido; mas eu vou te perder de todo.

—Como?

—Do Alcasar a uma ceia infernal é só um pulo: queres pular? —Não entendo. —Convido-te para cear com uma dúzia de demônios de ambos os sexos.

—Uma orgia...

—Pouco mais ou menos: mademoiselle tem medo de se comprometer? Corei da zombaria, e respondi:

—Aceito, se es tu que dás a ceia.

—Nessa não caia eu: quem paga a Cela é o tolo;

—E quem é o tolo?

—É o paio.

—E quem é o paio?

—É um animal que não conheces: é o velho que a Esmeralda depena.

—Conheço-o já; mas com que direito me convidas?

—O pateta do velho conta comigo e com um primo, de quem lhe falei, e que me faltou à palavra por causa de uma sobrinha, que celebra esta noite um batizado de bonecas: ficarás sendo meu primo durante a ceia, ou és mais tolo que o velho.

—Aceito o convite.

—Ainda bem, meu primo; principias a ter juízo.

VIII

A meia-noite o velho, dez alegres moças e outros tantos mancebos rodeavam esplêndida mesa.

Ridículo Baco de cabelos brancos, o velho provocava a companhia ao ruído, as cantigas livres, as libações freqüentes, à desenvoltura à orgia enfim.

Mais bela e petulante que todas as suas companheiras, Esmeralda era digna rainha daquela festa, que me inspirava espanto e horror.

Esmeralda, impudica e doida, desnudava encantos que o recato esconde cuidadoso, deixando-os apenas adivinhar nas palpitações do peito que arfa. Ela tinha esvaziado as taças cheias de seis vinhos diversos, e pedia ainda champanha e conhaque!

Mísera bacante precisaria em breve que a levassem quase carregada para dormir em casa. A bela moça embebedava-se!

Dentro em pouco faltava o juízo a quase todos: mulheres e homens se achavam aviltados, castigados pelos venenos da orgia e da depravação dos costumes.

Dois únicos dos convivas resistiam ao contágio fatal, o meu amigo, que bebera vinha com água, e eu que bebera água com vinho.

—Primo, disse-me ele; estuda esta lição, e aproveita-a.

—Tens razão, respondi; é tempo de fazê-lo: devo e quero apreciar toda a ignomínia, e toda a imensa vergonha dos nossos sócios de orgia.

E fixei a minha luneta mágica sobre a Esmeralda embriagada.

(continua...)

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