Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
C A P Í T U L O LXXIV
Em que se declara a terra e costa da ponta do rio da Prata da banda do sul até além da baía de São Matias.
A ponta do rio da Prata que se diz de Santo Antônio, que está da banda do sul, demora em trinta e seis graus e meio, defronte da qual são baixos uma légua ao mar. Da ponta de Santo Antônio ao Cabo Branco são vinte e duas léguas e fica-lhe em meio uma enseada, que se diz de Santa Apolônia, a qual é cheia de baixos, e toda a costa de ponta a ponta, uma e duas léguas ao mar, são tudo baixos. Este Cabo Branco está em trinta e sete graus e dois terços, e corre-se a costa nor-nordeste-susudoeste. Do Cabo Branco ao Cabo das Correntes são vinte e cinco léguas, e fica entre um cabo e o outro a Angra das Areias, ao mar da qual sete ou oito léguas são tudo baixos. Este Cabo está em trinta e nove graus, cuja costa se corre nor-nordeste-su-sudoeste. Do Cabo das Correntes ao Cabo Aparcelado são oitenta e seis léguas, e corre-se a costa de ponta a ponta lés-nordeste e oés-sudoeste, o qual Cabo Aparcelado está em quarenta e um graus, cuja costa e cheia de baixos, e apartes os tem cinco e seis léguas ao mar; é toda de areia e a terra muito baixa, por onde se metem alguns esteiros no salgado, onde se podem recolher caravelões da costa, que são navios de uma só coberta que andam em seis e sete palmos de água, deste Cabo Aparcelado se torna a recolher a terra para dentro leste-oeste, até a ponta da baía de São Matias, que está na mesma altura de quarenta e um graus, que serão vinte e sete léguas, e da ponta Aparcelada a quatro léguas em uma enseada que faz a terra, está uma ilheta, e na ponta desta enseada, da banda de loeste, está outra ilha, uma légua do mar.
Da ponta da baía de São Matias até a ponta de terra do Marco, são trinta e oito léguas, cuja costa se corre norte-sul, a qual é toda aparcelada, e antes de chegar a esta ponta do Marco está outra ilha. A terra aqui é baixa e pouco proveitosa. Nesta ponta de Marco se acaba a demarcação da coroa de Portugal nesta costa do Brasil, que está em quarenta e quatro graus pouco mais ou menos, segundo a opinião do Dr. Pedro Nunes, cosmógrafo del-rei D. Sebastião, que está em glória, que nesta arte foi em seu tempo o maior homem de Espanha.
S E G U N D A PARTE
MEMORIAL E DECLARAÇÃO
DAS GRANDEZAS DA BAHIA
Memorial e declaração das grandezas da Bahia de Todos os Santos, de sua fertilidade e das notáveis partes que tem
C A P Í T U L O I
Armada de Tomé de Sousa.
Atrás fica dito, passando pela Bahia de Todos os Santos, que se não sofria naquele lugar tratar-se das grandezas dela, pois não cabiam ali, o que se faria ao diante mui largamente, logo depois que se acabasse de correr a costa, com que temos já concluído. Da qual podemos agora tratar e explicar o que se dela não sabe para que venham à notícia de todos os ocultos desta ilustre terra, por cujos merecimentos deve de ser mais estimada e reverenciada do que agora é, ao que queremos satisfazer com singelo estilo, pois o não temos grave, mas fundado tudo na verdade.
Como el-rei D. João III de Portugal soube da morte de Francisco Pereira Coutinho, sabendo já das grandes partes da Bahia, da fertilidade da terra, bons ares, maravilhosas águas e da bondade dos mantimentos dela, ordenou de a tomar à sua conta para a fazer povoar, como meio e coração de toda esta costa, e ajudar e socorrer todas as mais capitanias e povoações dela como a membros seus; e pondo Sua Alteza em efeito esta determinação tão acertada, mandou fazer prestes uma armada e provê-la de todo o necessário para esta empresa, na qual mandou embarcar Tomé de Sousa do seu conselho e o elegeu para edificar esta nova cidade, de que o fez capitão e governador-geral de todo o Estado do Brasil; ao qual deu grande alçada e poderes em seu regimento, com que quebrou as doações aos capitães proprietários, por terem demasiada alçada, assim no crime como no cível; de que eles se agravaram à Sua Alteza, que no caso os não proveu, entendendo convir a si e a seu serviço. E como a dita armada esteve prestes, partiu Tomé de Sousa do porto de Lisboa aos 2 dias de fevereiro de 1549 anos; e levando próspero vento chegou à Bahia de Todos os Santos, para onde levava sua derrota, aos vinte e nove dias de março do dito ano, e desembarcou no pôrto de Vila Velha, povoação que Francisco Pereira edificou, onde pôs mil homens, convém a saber: seiscentos soldados e quatrocentos degradados e alguns moradores casados, que consigo levou, e outros criados del-rei, que iam providos de cargos, que pelo tempo em diante serviram.
C A P Í T U L O II
Em que se contém, quem foi Tomé de Sousa e de suas qualidades.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.