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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Nada... todos me tratam muitíssimo bem... D. Branca é um anjo... o Sr. Furtado um cavalheiro irrepreensível... todos, enfim, com quem nos damos, são umas belas pessoas...

— E então, filha? Dir-se-ia que tens lido os romances de Georges Ohnet ou os folhetins de Montepin... Se a questão é de casa, se não estás contente aqui mudemo-nos: sempre foi este o meu desejo.

Debruçados ambos no peitoril da janela, iam assim confidenciando baixo, àquela hora crepuscular, frente para a perspectiva sombria das montanhas que se recostavam numa mudez piramidal e tenebrosa, como dorsos de dromedários fugindo nos longes de um deserto...

Havia pausas curtas no diálogo.

O cemitério dava uma nota ainda mais triste à paisagem, àquele recôncavo da natureza, cuja melancolia tinha o sainete fúnebre da morte...

O céu, porém, o grande céu, numa impassibilidade mística, sem a dobra ou a franja de uma nuvem, sem o brilho de uma estrela precursora, vazio e desolado, era como a retratação simbólica do Nirvana oriental para onde correm as almas dos eleitos de Buda... — misterioso, inexpressivo e assim mesmo belo!

Uma claridade argentina e deliqüescente, qual o reflexo para o alto de uma cidade iluminada, emergiu como os pródromos de uma aurora boreal, no liso descampado que o sol ia deixando.

— Olha aquilo! — exclamou o bacharel, tocando no ombro de Adelaide.

Ela volveu o rosto à esquerda, para o lugar indicado, e, sem se aperceber de que já era noitinha, viu o medalhão esbraseado da lua no nascente, carregando toda a tristeza dos desiludidos, toda a inconsolável amargura dos infelizes, cujo olhar se embebera nele desde o princípio do mundo.

E a esposa de Evaristo não teve uma palavra de admiração, um movimento de surpresa: disse simplesmente, quase inconscientemente:

— É a lua...

E, com a face na mão, esperou que o astro bendito dos poetas lhe trouxesse algum remédio às dores, que eram muitas e profundas... Mas Evaristo continuou, distraindo-a:

— Tu estás nervosa, Adelaide, isso é nervoso, a moléstia da moda... Vamos procurar casa, que é o verdadeiro...

— Não, não! — interrompeu ela com um arzinho de amuo. — Daqui, de

Botafogo, para a província... para outro lugar... fora do Rio de Janeiro.

— Com efeito! Muito ódio tens tu ao Rio de Janeiro!

— Dizes bem: muito ódio...

— Queres, então, decididamente, voltar à doce vidinha de Coqueiros! Pois olha, não te gabo o gosto. O Rio de Janeiro sem o imperador e sem os preconceitos da monarquia, o Rio de Janeiro tal qual sonham os bons republicanos, há de ser uma coisa única! Palavra de honra como eu não desejava abandonar esta terra, enquanto não visse um homem do povo governando o Brasil!

— De forma que, se os médicos me aconselhassem uma retirada...

— Isso é outro caso, filha; a saúde em primeiro lugar. Mas não me consta que estejas tão doente assim...

— Pois estou... estou muito doente, muito apreensiva, muito nervosa... já não acho encanto em coisíssima alguma... Vem-me uma vontade de chorar, uma tristeza no coração...

Evaristo imaginou logo que se tratava de um primeiro filho. Oh, o seu ideal doméstico: um filho! Ouvira falar nos múltiplos sintomas da gravidez, nas primeiras manifestações desse estado... e o nervoso de Adelaide, aquela tristeza, aquela morbidez, não o enganavam...

Era pai.

Um sorriso complacente arqueou-lhe os lábios; todo ele sentiu-se invadido por uma onda de alegria e de ternura paternal. Já não estava ali o republicano exaltado, o homem feroz, o político sem entranhas, o abutre dos monarquistas e dos reis! A simples idéia de que em breve estaria com um bebê ao colo, nascido do seu amor, um novo e legítimo representante dos Holanda, fazia-o outro homem, calmo, generoso, inclinado ao perdão, amigo dos seus inimigos.

Adelaide compreendeu a ilusão do marido e sorriu também:

— Não... não é o que tu pensas...

— Não é! Ora, se é... — Juro-te!

Mas ele, na sua embriaguez, no seu enleio, na extrema felicidade que o assaltava, respondeu:

— O futuro nos dirá...

Com uma voz tão firme, tão convencida, que a esposa, mais meiga do que nunca, tornou a sorrir e beijou-o carinhosamente.

O luar banhava as montanhas com essa claridade misteriosa que faz sonhar em coisas vagas, intangíveis, etéreas, que a linguagem humana não define. Todos os objetos que a vista alcançava pareciam diluir-se, esgazear-se numa neblina luminosa e transparente. Embaixo, na rua, os lampiões, espaçados, morriam de abandono e de tristeza.

Evaristo acendeu o gás, porque — "aquilo estava cheirando a ruínas de Pompéia em noites de luar..."

— Ora, até que enfim! — dizia ele, riscando o fósforo. — Até que, enfim, o muito digno Sr. Evaristo de Holanda acertou no alvo!

CAPÍTULO VIII

O Visconde de Santa Quitéria foi o primeiro a anunciar a chegada do monarca a Lisboa, depois a Paris, depois a Baden-Baden; recebia telegramas diretos, que lhe enviava um amigo da corte, igualmente condecorado por Sua Majestade. E no mesmo dia em que o carteiro lhe entregava o despacho, abalava para Botafogo, dentro do seu cupê de arreios novos, com a notícia na ponta da língua.

(continua...)

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