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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Um escândalo. Soaram apitos; compareceram guardas de polícia; o Zé Gato saiu à rua para acalmar o borracho; foi alterada a ordem do préstito; a Lídia ficou muito branca debaixo do véu e ia tendo uma síncope; o Loureiro quis avançar contra o desordeiro, mais foi detido por João da Mata...

Afinal de contas, depois de alguns segundos, fez-se a ordem e o “casamento” seguiu em paz, direito à igreja do Patrocínio.

O Guedes forcejava por evadir-se dos braços do Zé Gato e do outro sujeito, que procuravam conduzi-lo à venda.

— Sou eu quem te pede, ó Guedes, vamos. Deixa de tolices rapaz; estás dando escândalo, homem!

— Não vou, porque não quero, está ouvindo? Não vou, porque não quero. Eu hoje faço o diabo!

E agachava-se, e caía para trás e tombava para os lados, sem gravata, os olhos esbugalhados, os cabelos em desordem, como um doido. Foi uma luta para acalmá-lo.

Por fim o Zé Gato mandou vir uma xícara de café sem açúcar, deu-lhe a cheirar limão, e, em pouco, o redator da Matraca dormia beatificamente, debruçado sobre a mesa de ferro onde eram servidas as bebidas.

— Coitado! lamentou o vendeiro. Um talento famoso! É um segundo tomo de Barbosa de Freitas...

Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo de amigos e amigas, mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho, conversando baixinho, com um belo ar de velha familiaridade. Nas fileiras do préstito havia um rumor de franca liberdade. Falava-se um pouco alto, ouviam-se risadinhas gostosas, tinha-se perdido a cerimônia grave de momentos antes. A volta não se parecia com a ida. A alegria dos noivos comunicava-se instintivamente aos circunstantes como se na verdade estes compartilhassem da íntima felicidade daqueles.

Outra vez a casinhola da viúva encheu-se que nem um ovo. No meio dos convidados havia estranhos que invadiam a sala sem cerimônia, imiscuindo-se no tumulto de gente como se fossem amigos velhos, de paletó-saco e gravatas de cores espaventosas.

Ninguém os conhecia, mas ninguém ousava despedi-los, deixando-os ficar, por uma condescendência razoável. Curiosos de ambos os sexos se debruçavam da parte de fora da janela para dentro, espremidos uns contra os outros.

Os noivos tinham-se sentado no sofá, defronte da janela, aconchegados, prelibando as delícias do matrimônio na casinha de Benfica.

Loureiro limpava devagar com o lenço rescendendo opópanax o suor que lhe corria em gotas da testa, encarando com supremo orgulho a curiosidade pulha dos circunstantes.

Pousava os pés sobre o tapete deixando ver as meias de seda cor de carne com pintas de ouro.

Lídia estava divina com a sua suntuosa “toalete” de noiva comprimindo-lhe os quadris rijos e carnudos, muito séria, o rosto afogueado.

O guarda-livros contemplava-a de instante a instante com um profundo olhar apaixonado, de dono que acaricia um objeto querido, sentindo-se mais do que nunca irresistivelmente atraído pela formosura sensual da Campelinho.

D. Amanda, sempre muito solícita, veio convidá-los para a ceia: que estava pronto o chá, e logo toda a gente enfiou pelo corredor atrás dos noivos sequiosa de cerveja e vinho do Porto.

Um rubor de ocasião solene tomou as faces do Castrinho disposto já a brindar os noivos num grande rasgo de eloqüência demostênica.

A saleta de jantar resplandecia à luz dos dois castiçais de vidro com mangas em forma de sino, colocados nas extremidades da mesa. A um canto, sobre uma mesinha de pinho, uma bateria de garrafas de cerveja desafiava a ganância dos convidados. Houve um assalto à mesa. Todos acercaram-se dela com a avidez de gastrônomos, e, antes que os noivos tomassem assento à cabeceira, já havia alguém sentado no extremo oposto. O Castrinho não pôde reprimir um — oh! de indignação, que felizmente passou despercebido. “— Sentem-se, sentem-se”, ordenava a viúva, inquieta como uma barata à volta da mesa, indicando as cadeiras. Todos se sentaram com ruído, acotovelando-se. Ao lado dos noivos os padrinhos, Carvalho & Cia e a esposa tinham o ar modesto de quem se vê cercado de honras imerecidas. O Castrinho, que não faltava a festa alguma dessa ordem, sentou-se ao centro com uma comoção visível no olhar agitado.

Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em pé, ao redor da mesa, àquela cena banal, de doze pessoas que comiam bolo à guisa de pirão de farinha; ao todo eram quatorze, mas o Loureiro e a Lídia, por um escrúpulo malentendido, apenas provaram o delicioso manjar e cruzaram o talher.

O Castrinho não se fez demorar muito. Quando menos se esperava, ei-lo de pé empunhando o cálice.

— Silêncio, silêncio! advertiu uma voz.

O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com um olhar vitorioso toda a saleta, e enfiando a mão direita no bolso da calça, com um grande ar de tribuno acostumado a falar às massas, começou:

— Meus senhores e minhas senhoras.

Fez-se um silêncio grave e recolhido, em que destacava apenas, muito de leve, o ruído dos talheres que continuaram a funcionar ativamente.

— Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres...

(continua...)

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