Por Domingos Olímpio (1903)
— Não. Eu é que falei de você. Disse-me que não lhe podia pagar o que tem feito por ele; entrou a repetir que já está desesperado... Sempre a mesma ladainha.
— Tem razão. Há quase um mês que padece...
— Deixe estar que, mais dias, menos dias, se descobre a verdade. Deus há de permitir que isso seja breve, talvez amanhã...
— Amanhã?!... Dessa esperança estou farta.
— Não desespere, Luzia. Quem espera sempre alcança. Você nem pode adivinhar o que vai acontecer.
— Sabe, então, alguma novidade?...
— Não. É um palpite.
— Um palpite à-toa?...
— Lembra-se, Luzia da minha alma, lembra-se do respônsio?
— Sim. E depois?...
— Não lhe dizia eu que tinha fé no milagre? Pois é por ter fé que prevejo a próxima libertação de Alexandre. Diz-me o coração que ele está ali e está na rua. Ainda há instantinho rezei o terço no cruzeiro do Rosário, e uma voz interior diziame, com segurança: Deus tarda, mas não falha... — Então ele nem perguntou por mim!?
Luzia prescrutava, com olhares insistentes, o pensamento de Teresinha, suspeitando que ela lhe ocultasse a verdade, ou que soubesse algo que, por compaixão, lhe não queria revelar. Essa reserva mental devera influir naquele ar de mistério, velado de ironia, palavras vagas, em completa discordância do gênio expansivo e alegre da rapariga, uma deleitosa criatura sem aspirações, resignada ao seu quinhão minguado da partilha das coisas boas deste mundo, feita pela Providência. Entretanto, ela testemunhava, com funda mágoa, a ansiedade, o desconcerto de Luzia.
Esteve a pique de revelar-lhe o descobrimento do dinheiro; mas, por um justo egoísmo, desejava reservar para si, exclusivamente, a caridosa iniciativa da libertação do prisioneiro, se bem que não houvesse ainda atinado como tirar partido do que vira, ou tornar valioso o seu testemunho único, porque não ousara verificar se a bolsa ficara no lugar onde Crapiúna a escondera.
Era por medo, por cobardia indesculpável que se não houvera assegurado dessa circunstância importante, ela que tinha afrontado perigos e estava calejada de suportar as vicissitudes da vida? E se ele houvesse tirado o dinheiro? Tornar-se-iam inúteis o descobrimento, o tormento daqueles angustiados, daqueles inolvidáveis instantes, porque nada valeriam as suas afirmações.
Seria possível que assim se desvanecessem as esperanças da iminente vitória da verdade à calúnia, urdida contra o pobre moço!...
Luzia por sua vez, meditava, com os claros olhos fitos na clara lua, a librar-se no céu, de um fino e doce azul. Seu pensamento adejava em redor de Alexandre, que, indiferente, não perguntara por ela, merecedora do castigo desse desdém, e rendida à voz diabólica que, das entranhas, lhe bradava, com insistência lancinante:
"és, culpada pelo teu excessivo amor-próprio, pela tua soberba!..."
Seguia-se a revolta, com assomos fanfarrões de defesa inconsistente, fútil.
— Não quer saber de mim? – pensava ela – Melhor. Fosse eu outra, faria o mesmo. Deixá-lo-ia entregue à sua sorte, desobrigando-me de tamanha canseira, pois muito tenho feito para demonstrar-lhe a minha gratidão. Talvez isso lhe conviesse para desembaraçar-se do compromisso de ligar à sua vida, uma mulher pobre com a mãe doente, duas bocas a reclamarem de comer, neste tempo de carestia, e maior soma de trabalho. Seria uma loucura pensar em casamento em semelhante crise. Ele, sozinho, poderia suportar privações, vencê-las ou sucumbir consolado de não fazer falta a ninguém, como defunto sem choro...
E Gabrina?... – Não iria esta ou outra igual ocupar, no coração vazio, o lugar que Luzia abandonara? Não procuraria ele, na triste conjunção do naufrágio das suas esperanças, uma afeição que o consolasse, um refúgio carinhoso, embora impuro de lascívia, onde se abrigasse para espairecer, como quem se intoxica de bebidas capitosas para curar dissabores, ou se afoga na vasa infecta de um pântano?
Seria horrível. E Luzia estremecia, sob um pavor, como se fora ameaçada do espólio de um bem inestimável, de coisa a que tinha direito sagrado, coisa que ela criara, e à qual transmitira parte da sua alma, planta que tratara com desvelado carinho, regada com o suor das suas aflições e o orvalho das suas lágrimas, ameaçada de ser desarraigado por mão criminosa, quando lhe desabrochavam, pujantes de viço, coloridas e perfumosas, as primeiras flores. Não tinha energias varonis, músculos poderosos para defender o seu bem querido, e esmagar o espoliador!?... Não tinha o indeclinável dever de lutar pelo que era seu, e constituía, já, elemento essencial da sua existência, como se defendesse a própria vida, o patrimônio inexaurível dos tesouros do coração, o precioso quinhão da inefável ventura que, neste mundo, só no amor se encontra?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.