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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Ana Rosa acendera uma vela a São Manuel do Buraco e Maria Bárbara prometera uma bochecha de cera a Santa Rita dos Milagres.

A Eufrasinha apareceu, e receitou logo — leite de janaúba.

— Corta-se o cipó e escorre um leite branco, tão grosso que é um azeite!

explicava ela com grande mímica. A gente apara numa xícara e depois ensopa algodão bem ensopado, e planta na cara do doente. É uma vez só, menina!

Na varanda conversavam sobre o desanimo do doente.

— É muito esmorecido!... protestava Maria Bárbara. Por qualquer coisa parece que está morrendo! Fica todo “Ai, ai, ai, eu mono desta!” Uma febrinha põe-no assim!

E Maria Bárbara, para mostrar ao vivo como ficava o genro, puxou as faces com os dedos e arregalou disformemente os olhos.

— Credo! exclamou Amância. e citou a morte de um conhecido seu.

Maria do Carmo passou a contar, patética, o falecimento do Espigão. Aquilo é que era morte! Só vendo!...

Seguiu-se uma enfiada de anedotas fúnebres.

Freitas, na sala, examinava, com minuciosidade patriótica, umas litografias, que descansavam na pedra dos consolos. Eram episódios da Guerra do Paraguai havia a tomada de Paissandu, a passagem de Humaitá, e outros, impressos no Rio e mel desenhados. Via-se o general Osório, a cavalo, sobressair com o seu bigode preto e a barba branca. E o pai de Lindoca despregava de vez em quando os olhos do quadro e passeava-os pela sala, à procura de uma vítima para a seca. Raimundo, logo que o bispou, escondera se no quarto, com medo.

Ana Rosa cumpriu o prometido de não voltar ao quarto de Raimundo, mas em compensação falava-lhe todos os dias no casamento. Depois do seu ajuste com o primo, andava escorreita, alegre, vivia a cantarolar, tanto na costura, como passarinhando pela varanda, a pretexto de ajudar a avo nos arranjos da casa, ao que ela agora ligava muito mais interesse. Maria Bárbara, por outro lado, deva aos diabos a papeira de Manuel e com esta a transferência da viagem ao Rosário. “Aquela demora do cabra em companhia de sua neta embrulhava-lhe o estômago! Não sossegada enquanto não o visse pelas costas!...”

Entretanto, aproximava-se o dia de São João. Em casa do Freitas, em casa de Maria do Carmo, como em casa do Manuel, falava-se da festa. A pagodeira seda, como todos os anos, no sítio de Maria Bárbara. Era um antigo costume ainda do tempo do defunto coronel, avo materno de Ana Rosa. A velha não relaxava a ladainha de São João. “Tudo! menos de deixar de fazer nesse dia a sua festa costumeira!” Aquela data representava para ela o aniversário dos acontecimentos mais notáveis da sua vida - nesse dia nascera o nunca assaz chorado coronel, o seu João Hipólito; também nesse dia fora pedida em casamento, e, um ano depois, justamente no dia de São João, casara; ainda nesse dia batizara a sua primeira filha - a defunta mulher de Sebastião Campos - e nesse dia enfim —Mariana esposara Manuel.

Fez-se uma congregação em casa do negociante, composta por Amância, Maria do Carmo as sobrinhas desta, e presidida por Maria Bárbara. Falou-se muito em capados, carneiros e perus de forno; discutiu-se com o que se devia encher o papo do peru - se de farinha ou com os próprios intestinos do animal, decidiu a maioria que se enchera com farofa, “à moda de Pernambuco”, explicava Etelvina. Fizeram-se grandes encomendas de dúzias de ovos; lembraram-se os doces menos lembrados; receitaram-se processos dificultosíssimos da arte culinária: consultou-se o “Cozinheiro Imperial”, houve oferecimentos de louça, compoteiras, talheres, moleques e negrinhas, para ajudarem no serviço; citaram-se pessoas privilegiadas na confecção de tais e tais quitutes; falou-se em caruru da Bahia e presunto de fiambre.

— No dia seguinte encarregou se a um pedreiro de correr uma caiação geral na casa do sitio; os escravos tiveram ordem de assear a quinta, limpar as estradas, os tanques, os pombais; e preveniu-se o padre Lamparinas. que era quem, todos os anos, cantava lã a ladainha de São João. Haveria dança e fogos Seda um festão de arromba! “O diabo! pensava Maria Barbara, era que o — cabra — só se ida do Maranhão para o outro mês!...”

No entanto, Raimundo aborrecia-se; a província parecia lhe cada vez mais feia, mais acanhada, mais tola, mais intrigante e menos sociável. Por desfeito, escreveu e publicou alguns folhetins; não agradaram — falavam muito a sério; passou então a dar contos, em prosa e verso; eram observações do real, trabalhadas com estilo, pintavam espirituosamente e os tipos ridículos do Maranhão “De nossa Atenas” como dizia o Freitas.

Houve um alvoroço! Gritaram que Raimundo atacava a moralidade pública e satirizava as pessoas mais respeitáveis da província.

(continua...)

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