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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E abraçaram-se e novo, freneticamente.

Quando parou a música Hortênsia caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.

Não podia dar uma palavra; não podia abrir os olhos. Sua respiração parecia longos suspiros contínuos e estalados.

Vários cavalheiros se aproximaram.

— Ficou muito fatigada?...Perguntou Amâncio, inclinando-se sobre ela, a mão apoiada nas costas do divã.

Hortênsia não respondeu. Cobriu o rosto com o lenço de rendas e continuou recostada. Foi a voz do marido que a despertou.

— Que loucura e esta, Neném?...Perguntou ele sorrindo com o seu bom ar de homem honesto.

Ela sorriu também, e pediu desculpas com o olhar.

— Sabes que te faz mal, para que valsas?...

Hortênsia soltou uma risadinha de intenção e disse baixo: — Não é o mal que me faz que te dá cuidado...

— Como assim?...

— Ora, é que tu não gostas muito de me ver valsar...

— Porque te faz mal, filha!...

— É só por isso? Afianças que não tens outro motivo?

Campos respondeu com um movimento de ombros.

—Olha lá!...ameaçou a bonita senhora, sacudindo um dedinho da mão direita.. — Olha que sou capaz de ,hoje em diante, não perder uma só valsa!... Ele repetiu o movimento de ombros, e acrescentou:

—Isto é lá contigo, filha; a saúde é tua, faze o que entenderes, ora essa!

Algumas pessoas perceberam o seu mal humor e riram com disfarce.

Nessa ocasião, Amâncio encostado ao bufete, pedia que lhe servissem um grogue à americana

* * *

— Está retemperando a fibra? Perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante, meio calvo, a bater-lhe amigavelmente no ombro.

O estudante voltou-se apressado e, logo que viu o outro, exclamou:

— Oh! O Dr. Freitas? Como passou? Não sabia que estava também por cá!

Freitas respondeu com a sua voz gasta- que chegara havia pouco; não lhe fora possível vir antes; tivera que acompanhar o enterro de um parente. — Coitado! cacete até depois de morto, três necrológios de hora e meia cada um!...Ah! os parentes! Os parentes eram uma desgraçada invenção, principalmente se não deixavam alguma coisa!

E, depois de retesar o peito e puxar a gola da casaca: — Mas então como ia o Sr. Amâncio de Vasconcelos?...Pela fisionomia jurava-se que tinha saúde para dar e vender, e, pelos atos, não parecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do amigo com Hortênsia.

E rindo: — Homem, faz você muito bem! Aproveite enquanto está no tempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experiência de que disponho hoje, não havia de proceder como procedi! Oh! Aquele aforismo tem muito fundo! “Si Jeunesse savait...”

E a olhar para os pés, com um gesto cheio de tédio: — Gostei de o ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu é que já não sou homem para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue à fadiga!..

Amâncio fez-se modesto; negava que dançasse bem; mas o outro, em vez de insistir nos elogios, como esperava ele, perguntou-lhe muito descansadamente por que razão não lhe apareceu depois da primeira visita?

O estudante desculpou-se com a falta de empo e o excesso de estudo. Havia ,porém, de aparecer, mais tarde.

As suas relações com o Dr. Freitas procediam de uma carta de recomendação, que um amigo do velho Vasconcelos lhe arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer estudante pouco escrupuloso; dispunha de ótimas relações, que podiam servir de empenho nas épocas apertadas de exame.

Tinha alguma coisas, gostava de ir à Europa de vez em quando, e o seus quarenta não espantavam a ninguém; ao contrário, ainda havia muito olho esperto de mulher que se arregalava para o ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto ele parecia eternamente empalhado nos seus fraques irrepreensíveis, nos seus chapéus à moda e nos seus enormes sapatos à inglesa, de um elegantismo feroz. Em consciência, ninguém o poderia qualificar senão de rapaz. As mulheres eram o seu fraco, o seu vício mais acentuado; várias anedotas suas, inspiradas neste assunto, corriam de boca em bocas há vinte anos.

Amâncio ficou muito seu camarada, desde a primeira visita. Em menos de uma horas de conversação, falavam já sobre as cocotes mais conhecidas na Corte; e , alguns dias depois, quando se encontraram na Fênix, o Freitas apresentou-lhe uma espanholona de buço louro, a qual nessa ocasião passava pelo corpo mais bonito do mundo equívoco.

— Pois você já está um fluminense acabado! Disse o elegante, a medir Amâncio de alto a baixo. — Não imaginei que andasse tão depressa...

(continua...)

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