Por Aluísio Azevedo (1891)
entretanto, governa ainda os meus sentidos e perturba ainda a minha consciência!...
O pó e a lama dos sepulcros não são menos poderosos do que a carne palpitante, quando os reanimam a nossa saudade e o nosso amor!... Não há mulher que de nós desapareça para sempre, quando nós deveras a amamos!... Foge-nos dos olhos, foge-nos dos braços, foge-nos dos lábios; mas da alma, ah! da alma, nunca mais, nunca mais desaparecerá a mulher amada!
E Ângelo voltou os olhos para o céu, interrogando-o. E exclamou:
— Meu Deus, teria eu pecado com o sonho desta noite?... O sonho, bem sei, é produto do pensamento, e por pensamento se peca tanto como por palavras e por ações; mas o sonho não obedece à vontade de quem sonha, porque, se obedecesse eu só construiria meus sonhos com as cousas que vos pertencem...
Deveis saber que sou bem intencionado e que sou sincero!... Ah! Maldita sejas tu, minha louca e desvairada fantasia, que me fazes revoltar contra mim mesmo!...
Se o velho Ozéas estivesse ali, ao lado dele. Ângelo teria ao menos a quem consultar o que devia fazer contra aquele inimigo terrível e traiçoeiro.
Mas só, como se achava, o mísero vacilara perplexo. Devia penitenciar-se pelos desvarios da sua imaginação, ou devia deixar que o sonho continuasse a correr à solta, cometendo todos os desatinas que lhe aprouvesse?
Entretanto o sino lá fora o chamava para junto do altar. O sino o chamava para que fosse ele erguer a hóstia consagrada acima da sua atordoada cabeça, oferecê-la a Deus em sacrifício!
Deveria ir?...
Sua alma estaria em suficiente estado de pureza, para arrastar-se até ao supremo trono do Criador, ou deveria a mísera arrojar-se por terra, envergonhada e corrida, à espera que as lustrais águas do tempo perpassassem bem por cima dela e a limpassem de todo?
Mas se ele em tudo aquilo não tinha a menor culpa?... Mas se o seu coração era puro, e só, em consciência, se preocupava com as causas divinas?...
Que deveria, pois, fazer?...
E o sino tocava, tocava, chamando-o com insistência.
Ângelo preparou-se, saiu do quarto e dirigiu-se para a capela, em silêncio e aligeirando o passo.
— Sim, sim! pensava ele pelo curto caminho. O meu lugar é lá, junto do altar!... O meu lagar é aos pés da Divindade!... Que importa que as bruxas do sonho maquinem e conspirem durante a noite, furtando-me a alma a Deus?... Eu sou da Igreja, só à Igreja pertenço, e é lá que devo estar como um marinheiro a bordo do seu navio, principalmente em dias de tempestade!
E entrou na capela.
Os aldeões o esperavam ajoelhados na nave, contritamente. Alguns tinham ao lado as ferramentas que deviam servir ao seu trabalho desse dia. Mulheres amamentavam os filhos, com os olhos fitos nas imagens dos santos. Velhos, secos e nodosos como esqueletos de árvore ressequidas pelo inverno, vergavam a cabeça sobre as trêmulas mãos apoiadas no bordão.
Os pardais e os melros chilreavam por entre as frestas das altas paredes da capela, caiada de cima a baixo.
As velas do altar derretiam-se tristemente, consumidas pela surda chama que a sangüínea luz da manhã tornava desluzida e lívida.
Ângelo atravessou a igreja, de olhos baixos, e foi colocar-se de joelhos nos degraus do altar.
A sua oração preparatória nesse dia durou mais tempo que nos outros. Notaram que as lágrimas lhe corriam pelas faces, quando ele se ergueu para celebrar o sacrifício.
E seus lábios tremeram na ocasião de receber a hóstia consagrada. Naquela alma, imaculada e sincera, um doloroso escrúpulo tolhia a confiança na sua própria pureza.
Mas celebrou.
E depois voltou-se, de braços abertos para os crentes, abençoando-os em nome do Pai de todos os homens.
Os sinos repicaram de novo.
Ângelo, mais sucumbido ainda que antes do sacrifício, retirou-se da igreja cabisbaixo e concentrado.
À saída, um cavalheiro saiu-lhe ao encontro e tirando o chapéu, disse-lhe cortesmente:
— Perdão, Sr. vigário; tenho que desempenhar uma sagrada missão ao lado de vossa reverendíssima... Sagrada, porque é voto de uma pobre criatura que já não existe...
Esse cavalheiro era o conde de Saint-Malô. Ângelo convidou-o a entrar em casa.
— Tenho um companheiro comigo... observou o conde, chamando com um gesto Artur Bouvier, que o esperava a certa distancia.
Depois de trocados os cumprimentos, entraram os três na modesta sala de jantar do pároco. Bouvier não se fartava de olhar para este como se observasse um fenômeno precioso pela raridade.
Naquela pobre casa desfavorecida do menor conforto, a elegante roupa de seda bordada a ouro dos dois cavalheiros destacava-se escandalosamente. Ângelo, defronte deles pálido e mal vestido, parecia um esfarrapado cadáver saído naquele instante da vala comum dos miseráveis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.