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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Na manhã de 27 ainda de nós se aproximou o inimigo, fazendo menção de nos disputar a passagem do ribeirão a que dá o nome o retiro. Conteve-se, porém, ante a atitude do 17.° de voluntários, que formava a nossa retaguarda, e assim continuou a nossa marcha, como a da véspera. Já sem voz, era o coronel Camisão carregado sobre um reparo de peça, Lopes sobre outro e 0 tenente-coronel Juvêncio, assim como vários outros oficiais e inferiores, em redes. Durante a última parada três haviam morrido. A meia légua do retiro atingimos afinal a margem do Miranda, demasiado abatidos e acabrunhados, porém, pare podermos experimentar a alegria com que contáramos. Via-se, à margem oposta, a case do guia, o teto hospitaleiro onde o viandante sempre encontrara boa acolhida e a abundância de tudo. No momento de ali chegar expirou o nobre velho, insensível à vista daquilo que tanto amara. Foi enterrado no meio do nosso acampamento, em terra que era sua. Os amigos lhe puseram sobre a sepultura tosca cruz de madeira.

CAPÍTULO XVIII

Chegada às margens do Miranda. Mantém-se o inimigo afastado para evitar o contágio da cólera. O Miranda não dá vau. Alguns homens o atravessam, entretanto, a nado, trazendo a boa notícia da existência de grande laranjal, coberto de pomos maduros. Os caçadores recebem a ordem de tentar, em corpo, a passagem e conseguem-no. Morte do tenente-coronel Juvêncio. Morte do coronel Camisão. Substitui-o, no cornando, o major José Tomais Gonçalves. Instala-se um vaivém sobre o riso. Chegam abundantes as laranjas. Seu efeito benéfico sobre os esfaimados e coléricos.

Irremediável se afigurava a nossa situação. Os paraguaios, em torno de nós, de observação, pareciam, como bem disse El Semanário de Assunção, anexo a este narrativa, gozar sem perigo, e tranqüilamente, do espetáculo de nosso aniquilamento pela fome e a peste. Tínhamos, com efeito, diante de nós um grande rio transbordado a nos cortar a única via de salvação.

A estação de abril a setembro não é a das águas; mas como se toda a natureza se houvesse contra nós coligado, teis, desde 13 de maio, haviam sido as chuva. radas que o Miranda intumescera de modo assustador, bramindo e espumando sobre as raízes desnudadas das árvores da barranca, não dando esperanças de permitir vau antes de alguns dias. Era, no entanto, para a Coluna, o único meio de o transpor. Não podíamos pensar em alçar uma ponte quando mal dispúnhamos de gente suficiente para o serviço das guardas: homens, no entanto, bem capazes ainda de ardor e energia num combate, mas não de contínuo trabalho manual, como este que exige uma construção de vulto. Estávamos, pois, sob os olhos dos paraguaios, segundo uma expressão destes penes, como gado encurralado e destinado ao corte.

Malgrado, entretanto, o aspecto ameaçador do rio, lançaram-se à água alguns nadadores intrépidos, impelidos pela fome, e, contra a expectativa geral, após muitos esforços, atingiram a outra margem, onde não encontraram vestígio algum do inimigo. O que descobriram foi a tranqüila morada de nosso valoroso guia rodeada de belo laranjal, cumprimento, tão agradável quanto completo, das promessas do velho e de todas as maravilhas que do seu pomar nos referira.

Não tardou que um dos primeiros exploradores dessa terra de promissão, lembrando dos companheiros de miséria, tivesse o mérito de, sem detença, atravessar de novo o caudal. Com a descrição animada de tudo o que defrontávamos — veio inflamar a mente daqueles que ainda haviam conservado algum resquício de iniciativa. Como a ausência, já muito sensível, do chefe nos deixasse larga autonomia, muitos foram os que, em tropel, correram à beira-rio, para tentar a passagem. Muitos a experimentaram: os mais fracos ou os menos favorecidos, traídos pelo desfalecimento, desapareceram na correnteza; outros dali, contemplando os felizes ocupantes da margem fronteira, tomaram-se como de desespero que quase desfechou supremo golpe nos restos da disciplina, sobrevivente a tantos desastres. Do próprio couro em que jazia quase agonizante ainda dava ordens o Coronel, umas, por vezes, incoerentes e inexeqüíveis, mas outras lúcidas, e práticas. Mandou que o corpo de caçadores a pé, o único ainda não contaminado pelo espírito de desorganização, atravessasse, quanto antes, o rio. Guarnecendo a outra margem, devia impedir o saque do pomar até que ele, comandante, ali pudesse ir ter a fim de proceder à justa distribuição de quanto lá havia.

(continua...)

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