Por Franklin Távora (1879)
O que Sinhazinha contou a Maurícia não era senão a verdade. Apenas Ângelo soube, por boca de Martins, que a cunhada ia unir-se outra vez ao marido, considerou despedaçados os estreitos elos que o tinham tão intimamente ligados aos seus encantos. Ao princípio, só teve para ela indignação e desprezo; mas posteriormente, refletindo melhor sobre as circunstâncias fatais que seguem de perto o casamento, tratou de esquecer-se dela, julgando-a antes digna de sua compaixão do que do seu rancor. Então, seu coração readquiriu a perdida independência. Muitas vezes, meditando em silêncio, concluía a ordem das suas idéias por este conceito: “Ando por entre duas sepulturas - a do meu pai e a do meu amor.” Parecialhe que nunca mais havia de ressuscitar este em seu coração como aquele não havia de ressuscitar mais na vida. Considerava essas duas perdas irreparáveis e equiparava a importância de uma à da outra. No meio das suas tristezas, uma única consolação servia-lhe de amparo e impedia que caísse de todo desalentado e vencido - era a de ser útil à mãe e aos irmãos menores. ”Esta herança que me deixou meu pai - dizia, referindo-se aos entes queridos que tinha a seu cargo - hei de defendê-la e zelá-la, não só porque desde o momento em que não a tiver comigo, me considerarei desligado inteiramente deste mundo, e só me restará desaparecer do banquete da vida.”
Tal era o estado da sua alma , quando uma tarde, passeando pela estrada, se lhe deparou Sinhazinha de pé no portão, suavemente beijada pelos últimos raios do sol poente. A menina trajava vestido de azul desmaiado como o do céu por noites de luar. Tinha uma saudade entre os cabelos. Os olhos lânguidos e ternos, ela os volvia brandamente para o lado donde ele se encaminhava. Vendo-o, corara ligeiramente. Este excesso de pudor produziu no coração de Ângelo, que ele julgava profundamente adormecido, senão morto, indizível impressão semelhante à que experimenta aquele que acorda de diuturno sono. Por essa ocasião, afirmando a vista no rosto da menina, descobriu-lhe modestos encantos em que nunca fizera reparo. Não tinha o intento de lhe falar, mas misteriosa fascinação o reteve junto dela por alguns momentos. Ouvindo-lhe a voz, achou-a engraçada. “Onde andava eu - disse consigo, que nunca adverti nesta suave e tímida harmonia?” Dois meses depois deste encontro e destas observações, os dois jovens, entendendo-se, eram como dois espelhos postos um defronte do outro - refletiam-se e iluminavam-se mutuamente.
Foi por esse tempo que Ângelo conheceu Júlia, cujos encantos tinha a vivez dos painéis pintados a fresco. Sinhazinha tinha a beleza correta, mas silenciosa e modesta das gravuras; Júlia trazia no rosto o colorido ardente, nos gestos a majestade que a arte ensina e que senhoreia os espíritos mais altivos.
Júlia, entretanto, não era de todo estranha e indiferente aos seus sentimentos elevados; seu coração guardava ainda restos de simpatia para as afeições ardentes e irresistíveis; ela era ainda capaz de amar, e chegou até a amar Ângelo. Educada no centro literário, iluminado ainda pelos graciosos talentos de Lopes de Mendonça, Rabelo Silva e tantos outros escritores de que hoje só restam ilustres e saudosas lembranças, ela não podia eximir-se de se sentir arrastada para o bacharel que nas horas vagas escrevia para as primeiras folhas do Recife, compunha dramas e romances, e sustentara um periódico literário, que deixou ligado ao seu nome honrada e vantajosa memória. Quando Ângelo finalizou a leitura do seu primeiro drama em presença da companhia, o qual um mês depois passou pelas provas públicas, Júlia foi a primeira que teve para eles palavras de admiração e demonstrações de simpatia. Ângelo começou então a viver exclusivamente para o teatro.
Estava na maior intensidade essa paixão, quando Ângelo foi sabedor da fugida de Bezerra. Lembrou-se de Maurícia, e do que se passara meses antes entre ela e ele; mas a lembrança depressa se desvaneceria se logo depois ele não tivesse recebido uma carta de Maurícia, acompanhada de uma tradução da Lélia, de George Sand, que ele lhe pedira no dia da festa natalícia de Eugênia para publicá-la no periódico que tinha a seu cargo.
Grande foi a surpresa de Ângelo ao receber a carta de Maurícia. Ao princípio, pareceu-lhe que era vítima de alguma conspiração teatral, visto que, na companhia as suas relações com Júlia já tinham suscitado despeito e hostilidades surdas; mas, atentando na letra, reconheceu que a carta era de Maurícia; esta nunca lhe havia escrito nenhuma regra; mas ele conhecia sua letra de a ver em carta e em músicas dirigidas a Eugênia. Demais, ali estava a tradução que ele pedira, há tempos, e o acompanhamento da sua poesia, que Maurícia lhe prometera.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.