Por Franklin Távora (1878)
Na dita tenda ajuntava-se o povo baixo da vila, que o vinho e o cobre do famoso mercador, por interesseira generosidade dele, faziam simpatizar com a causa dos mascates. Para esta gente estava ela nas mesmas condições que a botica do Rogoberto para o rábula, o meirinho e outros sujeitos de igual estofa. Era o club permanente da plebe. Aí se discutiam com veemência e largueza os negócios da amiga e da inimiga parcialidade. Não raras vezes, no estreito recinto desse singular parlamento, resolveram-se ofensas e defesas da máxima importância. O oficial de pedreiro, o servente de obras, o aprendiz e o oficial de outros ofícios, vinham deixar na tenda as noticias que colhiam nas ruas, e daí levavam as que os outros, seus iguais, tinham trazido para o ignóbil comercio em que eram práticos.
O Tunda-Cumbe fazia parte deste congresso ilícito. Então as repugnância reciprocas entre os portugueses e os homens de cor do país não estavam tão afirmadas como depois vieram a ficar. Eram adina de fresca data os grandes exemplos da fraternidade que em conjunturas gravíssimas ligara raças estrangeiras com raças e castas nacionais; aquelas representadas por João Fernandes Vieira e outros, estas por Filipe Camarão, Henrique Dias e tantos índios, mulatos e pretos que deixaram ilustres nomes esculpidos nas paginas da historia e glorificados pela tradição. Não é pois de admirar que, vendido o seu peixe na vila, fosse o Tunda-Cumbe, não por obrigação mas por devoção, tirar a ferrugem da língua na tenda do Lauriano, onde se reuniam outros mascates da sua laia.
Na antevéspera de S. João o Tunda-Cumbe tinha estado com o sapateiro e lhe havia dito que iria divertir-se à noite seguinte em casa do Victorino. Em conversa familiar já revelara tempos antes as suas inclinações por Bernardina.
<Em toda esta redondeza por onde ando, dissera o vendedor de peixes ao de sapatos, não conheço rapariga que tanto tenha bólido com o meu sentimento como a filha do Victorino.>
O tendeiro, que com os defeitos próprios da sua condição, trazia aliado o de instigador das ruins paixões, tantas coisas lhe meteu na cabeça que o mascate saiu dali cheio da falsa idéia de que ninguém melhor do que ele tinha direito à posse da rapariga. Àquela manhã, Antonio Coelho, passando pela porta de Lauriano, perguntara pelo Tunda-Cumbe. Respondera-lhe o tendeiro que lhe seria fácil encontrar-se com o peixeiro à noite em um ponto, que sabia; e, como farejou negocio importante, ofereceu-se para transmitir-lhe o recado que o mercador quisesse dar. Este contentou-se com lhe pedir que dissesse, de sua parte, ao Tunda-Cumbe, que viesse falar com ele impreterivelmente em sua casa àquela noite. Tunda-Cumbe, não obstante Ter grandes desejos de não deixar o samba senão depois de ausentes todos os convivas, correu sem demora à vila, calculando que de semelhante chamado só lhe poderiam provir vantagens, atento o estado das coisas na capital, do qual já tinham chegado as graves noticias à Goiana.
Os inimigos da nobreza, divertindo-se, como esta, ao menos aparentemente, e festejando com fogos enterrados à frente de suas casas, com reuniões, danças, comes e bebes a noite do precursor do Messias, projetavam também tenebrosas vinganças, seguindo, sem o saberem, os nobres, posto que o conjeturassem.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.