Por Franklin Távora (1876)
É plana, limpa, elegante e espalhada. Dela não poderia dizer Ampère o que disse de Goteborg, cidade da Suécia que tanto o encantou de tarde com suas casas altas e regulares, quando o desiludiu pela manhã sendo vista da torre da catedral, por não ser mais do que uma rua.
Goiana, não só tem muitas ruas, mas também muitos becos, verdade seja que alguns deles sem saída. Merecem particular apontamento as suas casas brancas que lhe dão certos ares de novidade, ou de noivado, ares que infundem indefinível alegria no espírito do hóspede. Se este é lido, entrando em Goiana, logo sabe que não entrou por engano em Saint Jean de Luz, ilustre cidade onde se celebrou por procuração o casamento de Luís XIV com Maria Teresa de Espanha, e que, ao dizer de um escritor, apresenta uma fisionomia sanguinária e bárbara, em conseqüência do extravagante uso de pintarem de vermelho antigo os batentes, as portas, as gelosias das suas habitações.
Há um provérbio espanhol que diz:
Quien no ha visto Sevilla No ha visto maravilha.
Teófilo Gautier pensa que mais justo fora que este provérbio se aplicasse a Toledo, ou a Granada, do que a Sevilha, onde nada encontrou particularmente maravilhoso, exceto a catedral.
O poeta sergipano, doutor Pedro de Calasans, que cedo foi arrebatado pelo infortúnio e pela fatalidade às musas do norte, dizia outrora, parodiando o provérbio espanhol:
Quem não ama Olinda, Não a viu ainda.
Assim será, assim é. Olinda semelha náiade gentil que adormeceu sobre arrelvado morro os pés banhados pelo Atlântico, a cabeça à sombra das mangueiras odoríferas.
Goiana, porém, tem também provérbio seu, e o seu provérbio é de tal significação, que, na singeleza em que se expressa, e de que o povo tem o segredo, insinua irresistíveis feitiços a favor dela.
Vê tu, meu amigo, como são expressivas estas reticências duvidosas, ambíguas, deliciosamente traidoras:
Goiana……………….
Que a todos engana.
Eu não conheço nenhum tão expressivo na ordem dos rifões populares.
O vocábulo — enganar — não tem nos nossos dicionários o sentido que a inteligência rica e lúcida do povo goianista lhe refere; tem somente a acepção ingrata que todos lhe sabemos.
Mas logo ao primeiro exame se vê que semelhante acepção está muito distante da que a imaginação deste grande povo liga ao sobredito verbo, quando emprega para exaltar o seu torrão natal.
A palavra — enganar, que faz parte do rifão, significa — seduzir, cativar, prender, mas seduzir com mil agrados irresistíveis; cativar com benignidade tão doce e fagueira, que é impossível deixar de ficar dela escravo; prender com tantas demonstrações afetuosas, com tamanha benquerença, que em vez de buscar fugir, cada vez se sente o prisioneiro mais desejoso de estar nessa suavíssima prisão, de não se desligar jamais dos seus deliciosos grilhões.
Cristóvão de Holanda dirigira em pessoa, como haviam feito todos os outros capitães-mores, o seu contingente na batida das matas do seu distrito.
Não tendo porém encontrado o Cabeleira, mas somente ladrões de cavalos e negros fugidos, recolheu-se à vila em paz com' a sua consciência, é verdade, mas descontente de não ver coroados dos brilhantes sucessos, que esperava, os seus esforços.
Não lhe custou pouco renunciar ao empenho de pôr nas cordas, como dizia ele, o maior facinoroso que pisava em Pernambuco.
Era presunção geral que a ele caberia, mais dia menos dia, a glória de prender o Cabeleira que dava mostras de consagrar particular estimação às matas de Goitá, lugar em que nascera e que, posto pertencia neste tempo a Santo Antão, ficava mais próximo do engenho Petribu que era propriedade daquele capitão-mor; e pertencia então a Goiana.
Mas o boato falso que correu a respeito da prisão do bandido pelo capitão-mor de Santo Antão, desvaneceu toda a esperança que Cristóvão de Holanda alimentava a semelhante respeito.
E que era feito do Cabeleira ?
Por onde andava ele quando seu nome corria por milhares de bocas um milhão de vezes no dia; quando sua imagem enchia o pensamento de um povo que o considerava um flagelo não menos fatal do que a peste e a fome que o reduziam à dor extrema?
Dizia-se que o Cabeleira, vendo-se perseguido tão estendidamente, tinha rompido, sem deixar traços da sua passagem como costumava, o cordão sanitário, e se havia internado nos sertões de Cimbres, ou de Pajeú, donde era impossível desentranhá-lo por serem então, como são ainda hoje, quase de todo desconhecidos esses medonhos sertões.
Dizia-se que, tomando para o norte, atravessara o Capibaribe e ganhara a ribeira do Pilar do Taipu, na Paraíba, a qual muitas vezes percorrera, tendo-a deixado coberta de cadáveres e ruínas.
Correram estes boatos e outros mais que com estes se pareciam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.