Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Christina, obrigada sem duvida pelas exigencias de uma perfeita cortezia, a obsequiar a todas as pessoas que em sua casa se achavão, não poude como até então occupar-se exclusivamente de Innocencio ; mas pelo menos olhou mil vezes, mil vezes sorrio para elle, e mil vezes ainda tornou a olhal-o corando, e certamente afflicta por não poder escapar de um modo conveniente ás insistências de Victorino, que especialmente lhe fazia a corte.
Ás dez horas da noite leventarão-se Antônio Cubas e seus filhos, para se retirarem, e logo depois Innocencio e Geraldo-Risota despedirão- se também.
— Até amanhã, disse Christina a Innocencio, apertando-lhe como sempre a mão.
Aquelle doce — até amanhã — foi para o apaixonado mancebo uma indizivel consolarão.
O padrinho e o afilhado voltavão para casa caminhando em silencio.
Mas Geraldo não podia conservar-se por muito tempo em silencio.
— Não dizes nada,Innocencio! observou elle, um pouco maliciosamente.
— Nada tenho que dizer, meu padrinho.
— Pareces-me um pouco pensativo.
— Quasi sempre ando reflectindo.
— Um pouco melancolico....
— Creio que não.
— Sou capaz de jurar que esta noite voltaste da chacara do Fagundes menos satisfeito do que das outras...
— Talvez.
— Porque ?
— Não sei.
Geraldo sorrio ; mas conteve-se, para que o afilhado não se apercebesse disse.
— Conhecias já aquelles Srs. Cubas ?...
— Conheci em Pariz os dous mais moços.
— Victorino e Carlos...
— Esses mesmos.
— Que me dizes delles?...
— Não convivi com elles ; nada posso informar das suas qualidades.
— Aproveitarão muito na Europa ?...
— Não estou no caso de responder affirmativa nem negativamente. Ignoro.
— Muito bem, Innocencio ! muito bem ! gosto ainda mais de ti quando não me fazes rir.
— Não o comprehendo, meu padrinho.
— Comprehendes....comprehendes: como não te é possivel elogiar aquelles dous petits-maitres, preferes guardar silencio : isso é generoso ; eu porém que sou máo e fallador, direi o que tens e escondes na consciencia. Victorino e Carlos forão para França, demorárão-se por lá cinco annos, gastarão cincoenta contos de reis ao tolo do pai, voltarão com dous diplomas que mandarão comprar na Allemanha, e chegarão ao Rio de Janeiro sabendo de menos a propria lingua e somente sabendo de mais uma lingua, nova e desconhecida, que se parece um pouco com a franceza : mas que, em ultimo resultado, não o é. Acertei ou não ?...
Innocencio sorrio e não respondeu.
— Sabes que mais ? disse Geraldo : gosto muito de fallar; mas aborreço-me de o fazer quando não me respondem : se eu fosse musico, detestaria as arias, e só cantaria duetos. Tu hoje estás intoleravel, Innocencio.
— Porque, meu padrinho ?
__ Queres que te diga o que te tornou assim silencioso e aborrecido de tudo ?...
— Diga.
— Foi o vento.
— Que vento?...
— O vento que começa a soprar, meu afilhado; aquelle que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens e a muitas senhoras. É um vento que os marinheiros não conhecem, vento que tem um nome geral que eu agora não quero dizer, e que póde também chamar-se por todos os nomes que
tomão os homens : desta vez o vento chama-se...
— Como ?...
— Victorino.
V.
O mez de Fevereiro ia correndo e approximando-se do seu termo.
Ninguém ignora que o mez de Fevereiro de 1861 foi no Brazil um mez cheio de alegria para alguns e de tristeza para muitos, conforme trouxe a satisfação ou o desengano das esperanças que em Janeiro sorrião a quasi todos os pretendentes de cadeiras no parlamento.
Innocencio andava triste desde muito dias, mas convém saber que não era a sua tristeza a conseqüência de uma derrota eleitoral. Distava muito da corte o Circulo por onde elle esperava ser eleito; não tinha ainda recebido noticias da eleição, e continuava, pois, como até então, a contar como seguro e indisputavel o seu triumpho.
Também não era a demora da nomeação que do governo esperava, que o fazia mostrar-se melancolico : maldizia das delongas com que a administração publica atrazava a decisão e despacho do seu requerimento, mas insistia sempre em que o governo o escolheria para desempenhar a comraissão de que se tratava ou escolheria para ella alguma outra pessôa de merecimento bastante para não lhe dar motivo de queixa.
O que entristecia Innocencio, era unicamente a situação em que se achava a respeito do seu amor e suas pretenções de casamento.
Depois daquella noite em que encontrara os quatro Srs. Cubas em casa de Fagundes, continuara durante uma semana a freqüentar com a mesma assiduidade o tecto querido onde vivia a sua amada, tendo sempre o desprazer de achar ao lado de Christina ou o velho Cubas e seus tres filhos, ou pelo menos o pretencioso Victorino, que não cessara de fazer a corte áquella que elle já considerava sua noiva.
A principio julgou aquellas visitas apenas impertinentes; logo depois, porém, incommodou-se muito seriamente com ellas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.