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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Chegou o Inácio Góis quando o fazendeiro acabava de dar ordens a Manuel Abreu, o feitor. 

— Que notícias nos traz da novilha, Inácio Góis? perguntou-lhe o capitão-mór de chofre. 

— Qual, sr. capitão-mór, a Bonina da senhora doninha? disse o Inácio Góis, embaraçado. 

— A Bonina, sim; desde ontem que desapareceu e até agora ainda não deu conta dela. Que vaqueiro é um, Inácio Góis, que não sabe por onde lhe anda o gado? 

— É uma coisa que não se explica mesmo, sr. capitão-mór. Já batí todo êste matão, e nem sinal de novilha. Nunca se viu uma coisa assim. Faz a gente imaginar!… 

— Não tem que imaginar, Inácio Góis; se amanhã cedo a Bonina não estiver no curral, ficamos sabendo que nosso vaqueiro só presta para curar bicheiras. 

O Inácio Góis abaixou a cabeça e retirou-se humilhado em seus brios de vaqueiro pelo remoque do fazendeiro. Outros, mais graduados e mais atrevidos do que êle, não ousavam afrontar o senho do mandão de Quixeramobim. 

D. Flor tinha assomado ao lume da porta, ainda a tempo de ouvir estas palavras. 

— Não te aflijas, disse o fazendeiro voltando-se para a filha; que a Bonina há de aparecer até amanhã. 

— Se Arnaldo estivesse aquí, já êle a teria descoberto, replicou a menina com um ligeiro enfado. 

O capitão-mór ficara impassível, como se não ouvisse as palavras da filha e entre elas o nome de Arnaldo, cuja revolta provocara por vezes nos últimos dias as explosões de sua cólera. 

Um fenômeno singular se havia operado no espírito do dono da Oiticica. A mesma estranheza do fato inaudito de uma desobediência formal a suas ordens, atuando em sentido inverso, desvanecera a primeira e violenta impressão produzida pelo acidente. 

Essa anomalia explica-se mui facilmente; era uma reação. Passada a comoção, o capitãomór tornara ao seu natural, e na soberba do mando absoluto, nada mais natural do que abstrair-se da recordaão importuna, a ponto de ter por impossível o acontecimento. 

Assim nos dias anteriores evitara toda a alusão ao caso inexplicável; e quando agora a filha pronunciara o nome de Arnaldo, êle já se tinha por tal modo imbuído da incredulidade, que o ouvira sem abalo. 

D. Flor admirou-se dessa indiferença, a qual era para surpreender após o formidável arrebatamento que três dias antes excitara no velho a última evasão do sertanejo. O límpido olhar da donzela buscou no semblante paterno a significação daquele gesto, e não achou alí senão a calma e serena expressão da fôrça em repouso. 

O capitão-mór erguera-se um instante, e observava além na várzea, que dilatava-se em volta da encosta, alguma coisa, que lhe excitara a atenção. 

Desceu então a donzela ao terreiro e foi sentar-se nos bancos à sombra da oiticica, onde a acompanhou Alina, enquanto D. Genoveva tomava o seu lugar em uma cadeira rasa ao lado do marido. 

O Agrela, que desde o aparecimento do fazendeiro na porta, aproximara-se como de costume para estar Às ordens, conversava com o Padre Teles, a alguma distância, recostado ao socalco do alicerce. 

Assim completou-se o painel de família que ordinariamente, fazendo bom tempo e não sobrevindo incidentes, observava-se no terreiro da fazenda da Oiticica, à primeira hora da tarde, logo depois da sesta, quando o sol ainda forte não permitia o passeio aos vários pontos da herdade. 

D. Flor parecia triste. A expressão já séria de seu formoso perfil estava nessa ocasião ainda mais nítida e correta. Era sempre assim. Quando a alma assumia-se em profundo recolhimento, as gentís feições, que ela animava em sua expansão, apresentavam uns tons puríssimos, como se fossem cinzeladas no mais fino jaspe. 

Desde a véspera desaparecera do curral a Bonina, uma novilha de alvura deslumbrante, que entre outras o capitão-mór escolhera por sua beleza para dar à filha, e desta recebera o nome de uma flor predileta. 

Êste sumiço e ainda mais a circunstância de não encontrar-se o rasto da rês, o que fazia presumir a morte da mesma, eram sem dúvida a causa da tristeza da donzela; mas essa perda não bastaria para preocupar-lhe o espírito com tanta insistência. 

D. Flor tinha bom coração; e sem dúvida alguma distribuía a sua afeição com os brutinhos, seus companheiros de solidão. Como em geral todas as moças, ela gostava de cercar-se dêsses confidentes discretos e alegres sócios de travessura. 

Tinha amizade ao seu cavalo; gostava de ver e afagar os bezerrinhos e novilhas seus preferidos; fazia saltar as cabrinhas e erguerem-se direitas sôbre os pés até a altura de seu rosto, para receberem uma carícia; queria bem às suas graúnas e sabiás; gostava de garrular com o seu periquito. 

Mas as efusões de ternura, em que se derrama o coração afetuoso de outras moças, que fazem de um passarinho um idílio e de uma corça um romance, é o que não tinha D. Flor, não fria, mas esquiva e comedida na manifestação de seus sentimentos. 

Seu pai inspirava-lhe profunda veneração, e sua mãe extremos de amor; entretanto êsse afeto sincero, capaz da maior dedicação, apenas denunciava-se adorar por êsses entes queridos. 

(continua...)

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