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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

O coronel lutava com um acesso de cólera terrível. Cruzava o aposento de uma a outra banda, trovejando como um temporal desfeito. 

— Por quem me tomam eles!… Pensam que admito semelhante loucura? Estão enganados!… Tinha que ver que eu fosse por minhas mãos entregar o continente ao mazorqueiro!… 

Manuel surpreso daquela agitação, esperou que o coronel se apercebesse de sua presença.

— Ah! estás aí?… 

Bento Gonçalves foi a uma banca onde estavam emaçadas algumas cartas que ele acabara de escrever. 

— Monta a cavalo, Manuel, e não pares enquanto não estiverem entregues todas estas cartas. Começarás pelo Rio Pardo e acabarás em Alegrete, na estância do coronel Bento Ribeiro. Aí poderás descansar. Tens dois soberbos corredores, o Juca e a Morena; és o primeiro peão que eu conheço. Se não deres conta da mão, ninguém mais o fará decerto.

— Fique descansado, meu padrinho, disse o gaúcho. 

E partiu. 

Na véspera passara por Bagé, de volta de sua comissão: tomara a estrada de Piratinim por um atalho, deixando Erval à direita; e fizera ali uma parada, contando chegar à vila por volta da noite.  

Os animais pararam, a olhar afetuosamente o gaúcho; porém o Juca, mais afoito, chegouse perto e farejou-lhe o rosto para ver se dormia, ou talvez para avisá-lo que era tempo de pôr-se a caminho. Habituado a estas familiaridades, Manuel descobriu o rosto e correspondeu ao afago do alazão puxando-lhe carinhosamente a orelha. 

De repente ecoou pelo campo um grito no meio de confuso tropel.  

Erguendo-se rapidamente viu o gaúcho alguns animais de carga a correr pela várzea, e mais longe uma mula corcoveando para arrojar de si a moça que a montava. Um preto se lançara com a intenção de tomar-lhe o freio; porém, o animal furioso o tinha arremessado ao chão. 

Quando o alazão passara pelo caminho a todo o galope, acudindo ao chamado da Morena, uma tropilha, que seguia o mesmo caminho dos viandantes, se espantara. As bestas retrocederam de corrida; o rumor dos couros que cobriam a bagagem ainda mais exasperou a mula que tomando o freio disparou, apesar de todos os esforços da gentil cavaleira. 

Com o pescoço enroscado, o queixo fincado aos peitos, e o corpo encolhido, a mula assanhada dava saltos e corcovos terríveis. Ora contraía-se toda, e logo distendia-se no arremesso, forcejando para romper os arreios que a ligavam. Catita, porém, não perdia o equilíbrio e fustigava com o chicote a cabeça do animal. 

Entretanto aos saltos a mula afastava-se da estrada. Na direção que ela seguia, o terreno elevado e pedregoso formava uma barranca sobre a charneca ou tremedal, a que na província dão o nome de sanga. Se a moça não conseguisse domar o animal, o que não parecia provável, na carreira cega em que ia, a catástrofe seria inevitável. 

Tudo isto passara rapidamente ante os olhos do gaúcho. Compreendendo o perigo que ameaçava a moça, ele não teve tempo de refletir. Passou a mão ao laço, atirado sobre a grama junto aos arreios, e saltou no costado do Juca. 

 

III 

A PARADA 

 

O alazão arrojou-se e fendeu os ares como uma águia; os pés nem pareciam tocar a terra, de tão rápida que era a corrida. 

Com pouco vencendo a grande distância, aproximou-se da mula, que no auge da fúria, disparava em trancos formidáveis. A borda do precipício já não estava longe, e não tardaria que o animal num daqueles saltos precipitasse do barranco abaixo. 

A gentil cavaleira sentira a iminência do perigo, e parecia que se preparava para evitá-lo. Sua mão, colhendo as amplas dobras da saia do roupão, revelava a intenção de saltar da sela. Naquelas circunstâncias, em um terreno tão áspero e com a sanha do animal, a resolução da moça podia ser-lhe fatal. 

Mas que fazer? Diante estava o precipício do qual aproximava-se com espantosa velocidade. Se tinha de morrer, Catita preferia que fosse antes ali sobre o campo, do que no fundo de um barranco onde talvez seu lindo corpo chegaria dilacerado pelas pontas de pedra e tocos das árvores. Essa idéia triste porém, não se demorou no espírito da moça, passou como uma borboleta agoureira roçando as asas negras por seu espírito e logo se desvaneceu. 

A destemida cavaleira, fiada em sua agilidade, contava livrar-se do furioso animal saltando da sela no momento oportuno. Para ela, a catástrofe iminente, cujo desfecho estava tão próximo, ainda não passava de um divertimento. Com a descuidosa imprevidência da mocidade, não podia acreditar que um incidente comum se convertesse para ela em uma desgraça. 

Observando os movimentos da moça, Manuel hesitou um instante. Seu plano concebido de relance, na ocasião de saltar sobre o costado do alazão, era alcançar a mula, e travando-lhe do freio subjugá-la para que a moça pudesse apear-se sem perigo. Se, apesar da velocidade do Juca, não houvesse tempo de apanhar a mula por causa da pequena distância em que já estava da barranca, então como recurso extremo, o gaúcho tivera uma idéia: 

— É laçar mula e moça tudo junto! disse o Canho consigo. 

(continua...)

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