Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sei que se chama Cândido.
– E mais nada?...
– E mais nada.
– Vamos mal, senhora; não vi, como desejava, satisfeita minha primeira pergunta; desvaneço-me porém de esperar que uma exigência, que agora farei, será completamente e cedo cumprida.
– E o que exige o senhor?... perguntou Mariana.
– Que as portas desta casa sejam fechadas a esse mancebo.
– Quem abre e fecha as portas desta casa a todas as pessoas não é a filha, é o pai.
Salustiano levantou os ombros e disse:
– Embora; eu o exijo.
Mordeu Mariana os lábios de despeito, e depois perguntou:
– E por quê?... e para que havemos de fechar as portas desta casa a esse infeliz moço?...
– Já o disse uma vez, senhora, porque eu o exijo.
– Oh!... e crê que há de ser humildemente obedecido, não é assim?...
– Tenho a certeza disso.
– Senhor! senhor!... exclamou a filha de Anacleto; não compreende que isso é já muito abusar?... oh! um cavalheiro zombando, insultando uma mulher, porque sente que ela não tem por si quem a defenda; que existe abatida com a consciência de um crime! Mas um cavalheiro deve sentir que quando chega a exaltação, quando mais não pode sofrer, quando enfim determina vingar-se, uma mulher vale o dobro de um homem; porque de ordinário o homem sabe somente matar, e a mulher sabe também morrer.
Salustiano começava a rir.
– O senhor se está aí rindo porque não sente que estas palavras pronunciadas
por uma senhora à face de um cavalheiro eqüivalem à maior das afrontas que um homem pode fazer a outro... mas deve rir-se... o senhor tem consciência de não ter generosidade nem honra.
Salustiano continuava a rir.
– O senhor se está aí rindo porque se persuade que sempre que estivermos juntos, haverá um senhor para mandar, e uma escrava para obedecer, não é isso?...
– Talvez.
– Sim... talvez ainda por algum tempo, mas um dia...
Aí se interrompeu Mariana, e encarando de perto Salustiano, prosseguiu:
– Qual é porém a razão por que as portas desta casa se hão de fechar a esse mancebo?... tem o senhor concebido algum projeto, diante do qual se levante ele?... que projeto é o seu, portanto? creio que ainda me assiste o direito de fazer tais perguntas.
– E eu tenho a certeza de que não preciso descobrir o alvo a que atiro, para ser satisfeito no que pretendo.
– Ah! senhor! isso é já demais.
– Estou falando, senhora, na suposição tristíssima de que nenhum de nós tem pejo, e somos como dois sicários que tratam de um crime.
– Oh! pois bem, exclamou com violência Mariana; vamos ao fim: pensa que não vejo o que se passa diante de meus olhos?... quer que lhe trace o painel de seu comportamento para comigo, e que lhe exponha seus últimos projetos?... ouça pois.
Salustiano descansou uma perna sobre a outra com inaudito sangue frio, e disse:
– Ouvirei, senhora; note porém que se vai fazendo tarde.
Mariana começou.
– Um acaso funesto, um acontecimento talvez determinado por Deus, para castigo de um crime que eu cometi, depôs em suas mãos um documento que prova esse crime. Quando eu soube que semelhante documento existia em seu poder, foi no meio de uma festa, no seio dos prazeres, dos quais o senhor mesmo me foi arrancar dizendo-me – és minha escrava!... – Oh! eu tremi realmente! e vejo bem que tinha razão de tremer: tremi, porque desde então havia no mundo um homem que possuía o meu fatal segredo; tremi, mas nunca pensei que esse homem abusasse tanto, e de maneira tão indigna, de uma pobre mulher sem defesa.
– Vai-se fazendo tarde, senhora, repetiu Salustiano.
– Senhor, senhor; já se não lembra acaso do que conosco se passou nos primeiros tempos de nosso desgraçado conhecimento?... lá nessas sociedades que foram o meu delírio, a minha fascinação; lá nessas assembléias eu me supunha admirada e querida; porque, confessarei tudo, tenho ainda hoje orgulho de ser bela; lá mesmo foi o senhor perturbar meus inocentes gozos; lá ostentou diante de seus amigos que merecia um amor que eu lhe não tinha, que eu lhe não podia dar; lá ostentou ter subjugado, ter conquistado o coração da mulher casada; e eu que observava isso, eu que sentia como as mulheres murmuravam contra mim, e os homens pareciam ter piedade de meu marido; eu que via o monstro da calúnia erguer-se contra minha fama de esposa fiel; eu... eu sorria ou corava, à vista de todos, quando o senhor se aproximava de mim ou me oferecia o braço convidandome para um passeio; porque, enfim, eu era sua escrava!... Em resultado o senhor era um homem infame e eu uma mulher covarde.
– Vai-se fazendo tarde, senhora, tornou Salustiano.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.