Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A jovem provinciana não deu com o escondido defeito, e aplaudiu o seu vestido que lhe pareceu e era realmente distinto, e tão distinto que produziu no baile o mais lisonjeiro efeito.

Mas por isso mesmo no fim de pouco tempo algumas senhoras com seus olhos perscrutadores fizeram a descoberta da quase invisível emenda triangular!!! e umas por inveja e outras inocentemente pediram à esposa do deputado explicações de semelhante novidade.

- Não sei, respondeu a senhora meio confusa, e corando vexada, não sei, o vestido veio-me doWallerstein que escolheu a seda, a modista, e tudo dirigiu.

As curiosas ficaram como atônitas, ouvindo o nome do Wallerstein, e antes de terminar o baile, cada uma delas já achava graciosa a emenda triangular dissimulada entre rendas e flores; nenhuma, porém, confiou às outras a nova impressão que aquela novidade lhe causava.

Dez dias depois em outro baile, todas as curiosas apresentaram-se com riquíssimas toilettes trazendo bem visível ao lado esquerdo e junto à barra dos vestidos a emenda triangular: já porém exagerando a moda não só com a manifestação e com proporções maiores da emenda, mas também porque esta como negligentemente feita repuxava com pequenos arregaços a barra do vestido, de modo a deixar ver a ponta do sapatinho de cetim do pé esquerdo.

- Que extravagante e feia moda é aquela? perguntavam algumas senhoras.

- É fantasia... é emenda triangular à Wallerstein: respondiam outras já informadas.

No dia seguinte, o Wallerstein foi obrigado a responder a numerosas interpelações, e a emenda triangular caiu no ridículo.

Em 1841, por ocasião das festas da coroação do Imperador, o Wallerstein regalou-se; todos os seus alcaides saíram da loja e fizeram farofa, como últimas modas de Paris da loja do Wallerstein.

Algum tempo depois, Mr. Wallerstein, o Napoleão da moda e da elegância sem Waterloo imaginável, farto de áurea colheita, e no apogeu da glória dos altos preços, bateu as asas, e foise do Rio de Janeiro.

Le roi est mort: vive le roi!...

A casa mudou de nome e chamou-se Masset.

A loja Masset estreiou-se com a herança do brilho e da fama do Wallerstein, mas aos poucos teve competidores de importância, e não pôde manter por muito tempo a primazia inabalável que gozara a do antecessor.

Ainda assim a loja Masset (a antiga), aliás sempre considerável, me daria assuntos curiosos para encher algumas páginas destas Memórias; mas houve Masset - o antigo, e há Masset moderno; a antigüidade do primeiro é jovem, como o dia de ontem, e a modernice do segundo é como menina, que hoje ainda faz travessuras, e portanto contemporâneas, ambas não devo nem quero ofender a modéstia da jovem, nem entender com a menina traquina.

Nas Memórias da Rua do Ouvidor sou e hei de ser cabeleireiro que só penteia cabelos brancos, quando não faz toucados para defuntos.

E apenas em frente da atual casa do Grão-Turco reparo agora que este capítulo já se alongou demais, e que é indispensável interromper a viagem que estou fazendo com os meus pacientes leitores.

Ancoremos aqui por hoje.

CAPÍTULO 13

Como em continuação da viagem pela Rua do Ouvidor, mostra-se a casa que foi - loja de perfumarias de Mr. Desmarais, lembram-se muitas das suas maravilhas e modas de penteados - trepa-moleque, a romântica estrada da liberdade, etc., e diz-se como o sobrevivente dos dois velhos Desmarias, retirado dos negócios, se conserva ainda robusto e sempre simpático e alegre, e é hoje o mais hábil dos amadores de pescaria de caniços nos mares de Niterói, o que faz suspeitar benigno influxo dos espíritos das belas pescarias da Rua de Aleixo Manoel. Cumprimenta-se de passagem ao Sr. Bernardo Ribeiro da Cunha. Como a propósito das perfumarias da Rua do Ouvidor incorre-se no despropósito de falar dos antigos tigres que a freqüentavam de noite; referem-se aos infortúnios ridículos de um inglês e de um estudante de Medicina; mencionam-se algumas reformas que houve em matéria de despejo até a inexcedível perfeição da City Improvements. O autor arrepende-se do assunto de que por último tratou, e, desapontado, fica no canto.

Um caminhante, homem de experiência, dizia aos companheiros de jornada: "devagar; que eu tenho pressa". Eu não digo o mesmo aos meus leitores, porque em viagem pela Rua do Ouvidor não há meio de andar depressa.

Uma dúzia de passos além da casa do Grão-Turco já é força parar em frente da de n.º 84, onde ainda no ano passado (1877) se achou instalado nada menos que o Globo, e agora se acha o Economista.

Aí outrora, isto é, há mais de meio século, floresceu, ou rescendeu, a primeira loja de perfumarias de que tenho notícia na Rua do Ouvidor.

Contemporânea da casa de modas do Saisset, ainda hoje é lembrada por celebridade cheirosa e simpática a de perfumarias do Desmarais.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4243444546...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →