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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

É evidente que se o mano Américo jogasse na praça com os seus próprios recursos, ganharia somente para si, e eu não teria parte nos lucros.

Eu fora o mais vil ingrato se desconhecesse o que devo ao mano Américo.

A visão do bem acaba de mostrar-mo tal qual ele é. A sua prudência e sabedoria igualam à sua dedicação fraternal, e aos escrúpulos de sua probidade.

Com a minha luneta mágica eu poderia gerir perfeitamente os meus negócios; não incorrerei porem nesse erro: o mano Américo continuará a ser o depositário de toda minha fortuna, e a administrará e empregará absolutamente, como entender melhor.

Oh! quão aleivosa e envenenada, traidora e diabólica era a visão do mal! A que criminosos juízos sobre o caráter dos meus ótimos parentes me levou ela!

Ainda bem que posso enfim ver e apreciar a verdade, e pelo conhecimento da verdade viver a mais ditosa, e risonha das vidas.

Casar-me-ei com a prima Anica.

A tia Domingas será o gênio protetor da família e o anjo da caridade que fará descer as bênçãos do céu sobre a nossa casa.

O mano Américo continuara a ser o arbitro, o regulador dos negócios da família, dispondo convenientemente dos nossos cabedais em proveito de todos.

E eu serei o egoísta, o desfrutador de tantos benefícios só e de tanta felicidade sem trabalho, sem cuidados, só me ocupando do amor da prima Anica. Abençoado sela o armênio

Abençoada seja a luneta magica que me deu a visão do bem.

VII

Eu tinha a febre da felicidade.

O mundo e a vida me festejavam o coração; eu desejava rir, divertir-me, folgar.

Em casa a tia Domingas e a prima Anica dormiam cedo, e eu senti-me contrariado pelas horas que havia de perder, deitando-me antes da meia-noite.

Acudiu-me ao espírito um pensamento extravagante, e talvez menos digno de quem já se considerava noivo: lembrou-me ir ao Alcasar Lírico, que nessa noite dava espetáculo e representação — não pedidos, nem para público de escolha—; mas da sua série ordinária e portanto menos contidos e mais livres.

Não refleti mais: decidi-me a realizar o meu intento.

A hora aprazada entrei pela primeira vez no tal teatro francês, de que tanto mal me diziam, e tomei um lugar no meio de numeroso concurso de homens e de mulheres.

Antes de tudo observei o teatro, cuja descrição não farei: achei-o bonito e cômodo mas no fim de três minutos de exame, a luneta mágica encantou-me com a visão do bem.

Que injustiça fazem ao Alcasar Lírico: vi nele o contrário do que me informavam! Vi nele o ponto de reunião de todas as classes da sociedade, o jubiloso recurso de entretimento para os homens pobres que não podem pagar outro menos barato, e para as mulheres que degradadas pelo vício são repelidas da boa sociedade; vi nele a mais eloqüente escola de moralidade pública pela exposição ampla e quase sem medida do comércio imoral e repugnante das criaturas desgraçadas que tem descido à última abjeção: melhor que as teorias e os conselhos de um pai austero, falava ali à mocidade o exemplo vivo dos perigos e das torpezas da devassidão. O Alcasar me pareceu enfim uma bela instituição filantrópica e filosófica, a Ética de Jó ensinada pelas antíteses, a ostentação da grandeza da virtude pela observação da baixeza do vicio.

Não pude compreender a razão por que o governo do Brasil ainda não concedeu subvenção ou loterias anuais para auxílio deste admirável teatro lírico francês!

Passei imediatamente a observar os espectadores de ambos os sexos, e antes deles as atrizes ou artistas.

Em breve me apercebi como que abismado em um dilúvio de arrebatadoras graças e dos mais generosos sentimentos. Não houve para a minha luneta uma só atriz francesa que não fosse prodígio; se nos primeiros três minutos uma me pareceu menos bonita, outra menos bem feita, e outra menos engraçada, passados os três minutos veio a visão do bem obrigar-me a pagar a todas elas os justos tributos da minha admiração: esta atriz cativou-me pela sua rara e esquisita sensibilidade que a tornava por agradecida e terna incapaz de resistir à flama de quem em honra de sua beleza ia confessar-se, mostrar-se rendido a seus pés; aquela deu-me o mais sublime exemplo do amor do próximo; porque abrasada nesse religioso fogo de caridade, não sabia fazer exceção no seu amor do próximo, e amava todos os próximos, como a si mesma; aquela outra, vivo e surpreendente símbolo de humildade evangélica, condescendente e submissa dobrava-se à vontade alheia, e era a escrava de cem senhores.

Declaro que tive medo de apaixonar-me por todas essas generosas e santas criaturas, em cujos olhos ardentes, feiticeiros sorrisos, requebros de corpo, e estudadas posições, descobri somente a ambição inocentíssima de agradar, o impulso da sensibilidade a mais terna, o amor do próximo ou dos próximos o mais profundo, e a humildade cristã da santa moça submissa e pronta a ser escrava de novos senhores.

(continua...)

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