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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Esta terra é muito baixa e não se vê de mar em fora senão de muito perto, e toda é de campos cobertos de erva verde, muito boa para mantença de criação de gado vacum e de toda a sorte, por onde há muitas lagoas e ribeiras de água para o gado beber. E tem esta terra algumas reboleiras de mato à vista umas das outras onde há muita caça de veados que andam em bandos, e muitas outras alimárias e aves, e ao longo da costa há grandes pescarias e sítios acomodados para povoações com seus portos, onde entram caravelões, em a qual se darão todos os frutos que lhe plantarem, assim naturais como de Espanha; e dos mantimentos de terra se aproveita o gentio tapuia, em suas roças e lavouras, que fazem afastadas do mar três ou quatro léguas, por estarem lá mais abrigados dos ventos do mar, que cursam no inverno, onde ao longo dêle não tem nenhum abrigo, o porque lhe fica a lenha muito longe.

C A P Í T U L O LXXII

Em que se conta como corre a costa do rio de São Pedro até o cabo de Santa Maria.

Do porto de São Pedro ao cabo de Santa Maria são quarenta e duas léguas, as quais se correm pela costa nordeste-sudoeste, o qual está em trinta e quatro graus; e tem, da banda do sueste, duas léguas ao mar, três ilhéus altos, que se dizem, "os Castilhos", entre os quais e a terra firme há boa abrigada e surgidouro para naus de todo o porte.

Toda esta terra é baixa, sem arvoredo; mas cheia de erva verde em todo o ano, há partes que têm algumas reboleiras de mato; a erva destes campos é muito boa para criação de gado de toda sorte, onde se dará muito bem por ser a terra muito temperada no inverno, e no verão lavada de bons ares frescos e sadios, pela qual há muitas águas frescas para os gados beberem, assim de lagoas como de ribeira, onde se darão todos os frutos de Espanha muito bem, como em São Vicente, e pelo Rio da Prata acima das povoações de castelhanos, onde se dá tanto trigo, que aconteceu o ano de 83 vir ao Rio de Janeiro uma das naus em que passou D. Alonso, vice-rei da província de Chile, que desembarcou em Buenos Aires, a qual carregou neste porto de trigo, que se vendeu no Rio de Janeiro a três reales a fânega, o qual se dará muito bem do Rio de Janeiro por diante, donde se pode prover toda a costa do Brasil.

Esta costa desde o rio dos Patos até a boca do rio da Prata é povoada de tapuias, gente doméstica e bem acondicionada, que não come carne humana nem faz mal à gente branca que os comunica, como são os moradores da capitania de São Vicente, que vão em caravelões resgatar por esta costa com este gentio alguns escravos, cera da terra, porcos, galinhas e outras coisas, com quem não têm nunca desavença; e porque a terra é muito rasa e descoberta aos ventos, e não tem matos nem abrigadas, não vivem estes tapuias ao longo do mar e têm suas povoações afastadas para o sertão, ao abrigo da terra, e vêm pescar e mariscar pela costa.

Não tratamos aqui da vida e costumes deste gentio, porque se declara ao diante do título dos tapuias, que vivem no sertão da Bahia, e ainda que vivam tão afastados destes, são todos uns e têm quase uma vida e costumes.

C A P Í T U L O LXXIII

Em que se declara a costa do cabo de Santa Maria até a boca do rio da Prata.

Do cabo de Santa Maria à ilha dos Lobos são quinze léguas, cuja costa se corre nor-nordeste, su-sudoeste a qual está em trinta e quatro graus e dois terços, cuja terra firme faz defronte da ilha, à maneira de ponta. Entre esta ponta e a ilha há boa abrigada e porto para navio. Desta ponta se vai recolhendo a terra para dentro até outra ponta, que esta outra ilha, que se diz das Flores, que está légua e meia afastada desta ponta, que se chama do Arrecife, pelo haver daí para dentro até o Monte de Santo Ovídio, está na boca de um rio que se vem meter aqui no salgado.

Desta ponta da ilha dos Lobos, que está na boca do rio da Prata, à outra banda do rio, que se diz a ponta de Santo Antônio, são trinta e quatro léguas. Está o meio da boca do rio da Prata em trinta e cinco graus e dois terços; e ao mar quarenta léguas, bem em direito desta boca do rio está um ilhéu, cercado de baixos em redor dele, obra de duas léguas, onde se chama os Baixos de Castelhano, porque aqui se perdeu uma nau sua, o qual ilhéu está na mesma altura de trinta e cinco graus e dois terços.

A terra junto da boca deste rio é da qualidade da outra terra do cabo de Santa Maria, onde se dará também grandemente o gado vacum e tudo o mais que lhe lançarem.

Deste rio da Prata, nem de sua grandeza não temos que dizer neste lugar, porque é tão nomeado que se não pode tratar dele sem grandes informações, do muito que se pode dizer dos seus recôncavos, ilha, rios que nele se metem, fertilidades da terra e povoações que por ele acima têm feito os castelhanos que escaparam da armada que nele se perdeu há muitos anos, os quais se casaram com as índias da terra, de que nesceram grande multidão de mestiços, que agora têm povoado muitos lugares, o qual rio da Prata é povoado muitas léguas por ele acima dos tapuias atrás declarados.

(continua...)

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