Por Adolfo Caminha (1896)
Adelaide compreendeu que o marido estava de mau humor e não lhe fez a menor pergunta, a mais leve recriminação: tinha-o a seu lado — era o principal. Ele também não disse a causa da demora, nem falou em coisíssima alguma.
Cantarolava baixo, desafinadamente, enquanto se despia.
Mas Adelaide não adormeceu logo; ferroava-a uma espécie de remorso, um vago arrependimento de ter pensado, com insistência, numas tantas loucuras de mulher sem juízo, nem moralidade... ela "a mais honesta das esposas, a mais virtuosa das donas-de-casas". Como aquilo fora, não sabia; o certo é que tinha uma espécie de remorso, uma dor no fundo d'alma como um ponto negro na brancura da sua consciência.
Duas vezes viu, à luz do quarto, o rosto tranqüilo do bacharel dormindo e duas vezes teve vontade de o acordar, simplesmente, para lhe dizer "que estava nervosa"; mas não se animou: preferiu respeitar o sono calmo de Evaristo. Chegavase a ele, medrosa, supersticiosa, sentindo-lhe a quentura do corpo, a respiração ronronada, e encolhia-se muito franzina, quase a desaparecer nos lençóis, como uma criança. Uma figura de homem interpunha-se entre ela e o marido, tentadora, chamando-a com os lábios fechados em beijo, criminosamente, o olhar voluptuoso, fosforescente de desejo, pousando nela e queimando-lhe as faces.
— Evaristo! Evaristo! — Há!... Que é?
O bacharel levantou a cabeça, espantado, os olhos muito vermelhos de sono.
— Que é?... — repetiu.
Adelaide estava diante dele fitando-o, como se o não reconhecesse. Mas, ouvindo-o falar:
— Nada... uma sombra...
— Que sombra?
— Uma coisa na parede...
— Pois tu ainda estás acordada?.
Ela não respondeu; tornou a deitar-se, muda, com arrepios de frio, enroscando-se toda.
Foi uma noite de pesadelos, de sonhos incríveis e de sobressaltos.
Adelaide, pela manhã, jurou ir-se embora daquela casa, fugir para longe, voltar à província, onde nunca o demônio lhe sorrira tão de perto.. Em Coqueiros, ao menos gozava tranqüilidade, ninguém lhe ia meter na cabeça idéias perniciosas a titulo de civilização, nem era obrigada a luxo e a hipocrisias. E outra vez a imagem da negra Balbina, como um tipo primitivo de ingenuidade e candura, acenava-lhe do fundo da memória, recordando-lhe o passado, os tempos felizes de uma existência quase bíblica, dourada pela esperança e pelo amor... Começava a odiar o Rio de Janeiro - esse Botafogo aristocrata e imoral, cheio de convenções, onde todo o mundo era grande, onde não havia pobreza, nem sinceridade, e só se falava no Lírico, em Petrópolis e vestidos à última moda e passeios a carro e piqueniques e na família imperial! Já podia ter-se mudado, já podia estar longe de tanta mentira. A culpa era sua de mais ninguém... Bem feito, muito bem feito!...
Andava-lhe na cabeça um enxame de idéias; palpitava-lhe o coração desordenadamente; queria, mas não tinha coragem de falar a Evaristo numa mudança breve, numa retirada escandalosa, que podia suscitar desconfiança no espírito dele. Era preciso ir pouco apouco fugindo à tentação daquele homem, evitando-o, mostrando-se fria, de uma frieza de estátua, cada vez que ele se aproximasse dela, até ir-se embora da Corte com Evaristo.
E enquanto Adelaide pensava nessas coisas, sem nada dizer ao marido, o bacharel premeditava o arrasamento das instituições, ao mesmo tempo que lia, com avidez, os artigos revolucionários d'A Folha.
A jovem senhora estava emagrecendo, mas emagrecendo como quem sofre uma lesão oculta, uma doença profunda na parte mais delicada do organismo. Já era débil, naturalmente franzina, com olheiras sintomáticas de anemia, o pescoço esguio, o nariz afilado, a voz cansada, de um timbre melodioso, quase a extinguir-se, uma passividade meiga aos olhos; mas agora, tudo isso como que ia tomando uma expressão visivelmente mórbida aos olhos de toda a gente, menos aos de Evaristo, que os tinha voltados para a política e para os republicanos.
— Não me achas magra? — perguntava ela ao bacharel.
— Não, a mesma coisa... — dizia ele fitando-a. — Sempre foste magrinha.
Até que uma tarde, após o jantar, Adelaide, em conversa com Evaristo, disselhe:
— Oh! quem me dera voltar à província!
O bacharel encarou-a.
— Homessa!
— É o que te estou dizendo...
— Então já aborreceste o Rio?
— Já.
— Pois admira... Inda não há muito tempo falavas com entusiasmo na Rua do Ouvidor e nos bailes do Cassino...
— É verdade, mas.
— Mudaste de idéia como o Valdevino Manhães de política...
— Isso mesmo. Há dias que penso doutra forma. O Rio de Janeiro é essencialmente egoísta e eu não me coaduno com a vida que temos vivido nele... De repente apoderou-se do meu espírito uma nostalgia, uma tristeza mesclada de apreensões e de desânimo... um aborrecimento das coisas que me cercam... Prefiro viver só, bem longe desta sociedade... lá no fundo da minha província, em Coqueiros, como outrora...
— Estás eloqüente! — exclamou Evaristo, interrompendo a esposa.
E logo:
— Mas vem cá: desfeitearam-te? trataram-te com menos polidez?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.