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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma cousa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-se-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé: estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o “maldito hospital”. —“Nunca mais havia de lá, por os pés, nunca mais!”

A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidraça de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!

Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.

De repente: — “Ah! a padaria!” Já se não lembrava; era a mesma também, a mesmíssima, com seu grande letreiro na fachada — Padaria Lusitana, com suas três portas, debaixo de uma sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente.

Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.

— O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa?

— D. Carolina?

— Essa mesma: uma gorda, bonitona...

— Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.

— E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?

— Também, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos à noite...

— Saem juntos?

— Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...

Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a ocasião era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.

— O senhor não estará enganado? tornou ele muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.

E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: — Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...

— Essa mesma, homem!

— O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho...

— Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da Bastilha. Conheço muito D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...

Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! BomCrioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas idéias. — Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!

— Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e surpresa. Não se admire, não, que é que o todos dizem...

E logo, interrompendo-se, com o braço estendido:

— Olhe, nem de propósito: aí vem ele, o pequeno...

Aleixo ia saindo porta fora, tranqüilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.

O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes; garganteou um — oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de cólera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não via nada, tresvariado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.

Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos congestionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente. O pequeno estacou surpreendido:

— Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!

E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse atirar no chão.

— Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!

O efebo debatia-se, pálido, aterrado:

— Me largue! Não me provoque, senão eu grito!

— Anda pr’aí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem-vergonha... malagradecido!

Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo; a palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.

— Grita, anda!

O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar, numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:

— Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!

Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado. longínquo e profundo.

— Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!

— Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!

— Não te largo, não, coisinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que aqui está, não é o que tu pensas...

(continua...)

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