Por Inglês de Sousa (1891)
Quando padre Antônio de Morais deixou a porta do estabelecimento do Costa e Silva, levava uma irritação surda que a custo contivera na presença do correspondente do Democrata, que nunca vira tão de perto, e cujos pequenos olhos pardos o desafiavam como dois punhais erguidos sobre o seu peito. Vira os dois rapazes maliciosos, sorridentes, preparados para arrebentar de riso com as pilhérias que o professor ia dizer ao padre, vira o capitão Mendes da Fonseca de cabeça inclinada, lenço desdobrado nas mãos espalmadas, pronto a ouvir a resposta e a assoar as ventas, e compreendera a intenção humilhante com que o haviam chamado. Lembrara-se de repente do tempo do Seminário e tivera um ímpeto de entrar na loja, de tornar patente a vacuidade daquela inteligência desregrada, a futilidade daquela erudição de algibeira, a insignificância daquele sujeito que Silves venerava, e cuja camisa amarrotada e suja, de punhos afiapados, cujas mãos suadas de anemia, com dedos culotados pelo abuso do cigarro, davam-lhe uma sensação de repugnância e de hostilidade, que não podia vencer. Compreendera, refletindo, a tolice duma discussão com aquele homem, naquele lugar, que o faria resvalar para o terreno da igualdade com aqueles três vadios insolentes, mas agora, continuando o seu caminho para a igreja, sob os últimos raios do sol já oculto por trás da cordilheira, tinha um vago pesar da vingança insatisfeita.
Chico Fidêncio simbolizava para padre Antônio de Morais todos os desgostos das ilusões perdidas, todo o desencanto da sua generosa tentativa de regeneração de Silves, e o amargor do amor-próprio vivamente ferido pelo insucesso dos seus esforços.
Fora cruel a desilusão causada pelos efeitos negativos do seu último sermão, trabalhado noite e dia com esmero, com carinho, com o entusiasmo da esperança numa vitória que se lhe afigurava garantida. E desde esse dia um aborrecimento mortal lhe viera invadindo a alma, produzindo um grande desânimo. Já se sentia incapaz de prosseguir naquela obra de moralização e doutrinamento para a qual se necessitavam uma paciência heróica e uma abnegação de todos os momentos, que teriam de ficar obscuras, para sempre desconhecidas. Fizera um enorme esforço sobre si mesmo para dedicar-se àquela modesta carreira, abafando os lampejos do gênio irrequieto e ousado, contendo a custo o ímpeto das paixões que lhe tumultuavam no cérebro, mordendo o freio da conveniência e da gravidade, como no caso da provocação do Chico Fidêncio, com a raiva impotente do cavalo que mão valente refreia. Sentia na vaidade picadas lancinantes, cada vez que adivinhava o olhar desconfiado e cáustico do jornalista a perscrutar-lhe as intenções, com uma enorme avidez de lhe descobrir as falhas da armadura, para as expor nas colunas do Democrata, com as vítimas habituais da sua ímpia crueldade. E, como agora, cada vez lhe custava mais o dominar-se!
Aquela vida de obscuros e não apreciados sacrifícios, de virtudes negativas que os amigos de Silves resumiam em - não beber, não jogar, não dar escândalos com mulheres - começava a pesar de modo insuportável, e padre Antônio entrevia, cheio de profundo e íntimo desespero, um futuro vulgar de padre bem-comportado, preso à igreja duma vila de interior, numa colocação perpétua, engordando na vadiação estúpida dum paroquiato aldeão, e acabando, esquecido do mundo, numa icterícia negra. Agora estava farto das beatas de lenço branco na cabeça, de andar miúdo e língua viperina; cansado de ensinar o catecismo às crianças; enjoado das ladainhas, puxadas numa voz monótona, à frente de tapuios boçais, à luz mortiça das lâmpadas de azeite de mamona. E caminhava, à boca da noite, seguindo a curvatura graciosa do lago Saracá, soluçante e pardo, para ir rezar uma ladainha!
A obrigação que se impusera de dizer missa todas as manhãs para o povinho ouvir ia ficando uma sujeição incompatível com a dignidade do sacerdócio, uma maçada ativa e passiva, pensava, recordando os dissabores do dia que ia findar na estopante reza da noite. O vinho, o famoso vinhito do Filipe do Ver-o-peso, já lhe não parecia o mesmo. O português o teria deslealmente adulterado com passas e aguardente açucarada? As hóstias sabiam a mofo, apesar de constantemente renovadas. A igreja nua, fria, só era procurada por gente incapaz de perceber uma silaba de latim. Então, à beira do lago deserto, uma indignação o possuiu, achando ridículo o recitar frases latinas e gregas a uma dúzia de negras velhas que, de joelhos, vergadas para trás, com os olhos em alvo e os dentes brancos brilhando na sombra, estropiavam a ladainha na repetição fanhosa e grotesca das invocações da prece.
E cada passo que dava o aproximava da igreja, cada momento que fugia adiantava a hora em que teria de recitar em voz monótona as frases latinas e gregas que as negras não entendiam...
Sentiu um grande desgosto de si mesmo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.