Por Domingos Olímpio (1903)
O beco estava deserto, banhado de luz intensa, suavemente argentina. Na casa fronteira, alumiada pela froixa luz de uma vela de carnaúba, chorava, em magoados vagidos, uma criança enferma, acalentada pela mãe, que murmurava monótonas cantigas, cortadas de suspiros. Era a angústia do coração a estoirar de pranto.
Teresinha espreitou todos os lados; fechou a porta sem estrépito, e partiu, dirigindo-se para a várzea, por uma estreita senda, cavada no solo, ladeado de cisqueiros, farejados, afocinhados de cães magros e murchos, que se esgueiravam desconfiados. Ela passou, depois, cosida aos altos muros do fundo dos quintais, até chegar à encruzilhada das ruas, cheias de escravos, retirantes, gente ,suja, gente esquálida, carregando potes d'água, colhida nas cacimbas abertas na areia do rio, a conversar, rezingando, em voz alta, com rasgadas desenvolturas de chufas, de arregaços obscenos, com risos estridentes de malícia.
Ao chegar à rua, suspirou libertada do pavor aflitivo; e, outra vez, gozando uma doce serenidade d'ânimo, seguiu na direção da igreja do Rosário, relembrando os incidentes daquela tarde, a cena do jogo, a cobardia no esconderijo, e o terror que lhe não permitia verificar se Crapiúna deixara a bolsa de coiro de onça debaixo do caixão. Em todo caso, estava satisfeita com o haver logrado a certeza do verdadeiro criminoso, indicado pelo infalível, pelo glorioso Santo Antônio, e a convicção de concorrer para a libertação de Alexandre e a felicidade inteira de Luzia. E reputava-se engrandecida por essa boa ação, renovada do passado de culpas, de crimes talvez, dos quais fora responsável inconsciente, e, sobretudo, a principal vítima. Entidade diminuída e inútil, flutuando sobre uma suja torrente de vícios incontinentes, sentia-se valorizada, sentia-se forte e sentia-se prestante. Duas criaturas, pelo menos, neste mundo de ingratidão, de perfídia e de miséria, seriam reconhecidas à sua dedicação.
Enlevada no doce conforto do beco, Teresinha foi subindo a rua do Rosário até ao largo. Em redor do Cruzeiro, erguido defronte da igreja, sobre um sólido pedestal de alvenaria, crentes, ajoelhados, rezavam padre-nossos, ave-marias e o terço, murmurado, nuns tons soturnos de devota cadência.
Do piedoso burburinho, sobressaía a voz de Dona Inacinha, ao recitar, com solenidade de padre, o gloria-patris, respondido pelos fiéis, numa algaravia, um mistifório de latim e português: — Os que perderem em princípio, agora e sempre por todos os séculos, séculos. Amém, Jesus.
A moça prostrou-se, comovida, abeirando-se do grupo, pouco e pouco engrossado pelos transeuntes, de uma reverência grave, na maioria mulheres, de alvos mantos, a espalharem ao luar, claro como o dia. Havia muito, seus lábios se não entreabriam à florescência da prece consoladora, nem despertava, aos eflúvios puríssimos da fé, sua alma agrilhoada ao pecado. Dos hábitos piedosos da infância, apenas conservava o de persignar-se antes de dormir, antes de tomar banho. Não se recordava da última vez que rezara, a não ser a oração sacrílega em casa da Rosa Veado.
Terminados os mistérios do terço, Dona Inacinha entoou, com pompa, numa voz fanhosa e áspera, o canto de contrição, — "Oh! Senhor Deus bem-amado...", acompanhado por todos os devotos, com uma dissonância aparatosa, irremediável. Aos derradeiros versículos, houve uma contrita, houve uma longa pausa. Recolheram-se todos com Deus, curvados e humildes, preparando-se para o solene epílogo do ato religioso, a súplica comovente de misericórdia. Quando, esta ecoou, entoada pela beata, em acentos plangentes, as pessoas, afastadas da igreja, reunidas em roda, na calçada, tanto que ouviam a súplica, ajoelhavam e batiam também nos peitos, repetindo, em leve, em sentido balbucio, a invocação à misericórdia divina. Teresinha curvou-se, compungida, e pediu a Deus, sinceramente, perdão dos seus pecados.
Ergueram-se os devotos, como um rebanho de ovelhas, espantado na malhada noturna, e debandaram em todas as direções, depois de beijarem o pedestal da grande cruz negra, que o luar destacava, com melancólicos fulgores.
Ao toque de nove horas, desmancharam-se as rodas de confabulação amistosa; trocaram-se saudações habituais e arrastaram-se as cadeiras para o interior das casas, cujas portas se fechavam com estrépito.
Naquele tempo, terminavam a tal hora, com exceção das raras casas da fidalguia da terra, as visitas, fossem de cerimônia, fossem íntimas. É considerável esta nota.
Luzia passeava, impaciente, sob a latada, cujas palhas, muito secas, farfalhavam ao violento embate das rajadas tépidas.
— Que horas são estas?! – exclamou, avistando Teresinha.
— Fui ao meu quarto – respondeu esta – mudar a roupa e peguei no sono...
— Pensei que te havia acontecido desgraça... Tardaste tanto... Estava num pé e noutro ansiosa... E ... Alexandre?...
— Na mesma. Poucas palavras e muito sucumbido... Mete dó vê-lo, coitado!
— Perguntou por mim?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.