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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E, sem saber o que fazer, atarantado, foi à porta, voltou, tornou a ir, aflito, sobre brasas.

— Então minha prima tenciona ficar?... Não chore mais!... Que imprudência a sua!... Lembre-se que está no meu quarto... Tenha a bondade - retire-se. Não fique ressentida, mas vá, que podemos comprometer-nos muito seriamente!...

Redobrou o pranto.

— A senhora não tem motivo para chorar!...

— Tenho sim! respondeu ela por detrás do lenço.

— Ora essa! Então por que é?...

— É porque o amo muito. muito, entende? declarou entre soluços, com os olhos fechados e gotejantes, e assoando-se devagarinho, sem afastar do nariz o lenço ensopado de lágrimas e entrouxado na mão. - Desde que o vi! Desde o primeiro instante! percebe? E no entanto meu primo nem...

E desatou a chorar mais forte ainda, desorientada, apaixonadamente.

Raimundo perdeu de todo a esperança de acabar com aquilo de um modo conveniente. Não obstante, sentia que gostava bastante de Ana Rosa mais do que ela podia julgar talvez, mais do que ele mesmo podia esperar de si. “Mas, se assim era, que diabo! que se casassem como toda a gente! Era levá-la à igreja, em público, com decência, ao lado da família! e não tê-la ali, a lacrimejar no seu quarto as escondidas, romanticamente! Não! não admitia! Era simplesmente ridículo!” E disparatou:

— De acordo minha senhora, mas eu não tenho o direito de detê-la no meu quarto. Queira retirar-se!... o lugar e a ocasião são os menos próprios para revelações tão delicadas!... Falaremos depois!

Ana Rosa continuou a chorar, imóvel.

Raimundo chegou a conceber a idéia de ir à varanda, chamar por alguém, fazer bulha, contar tudo! mas teve pena dela; “Iria prejudicá-la, ofendê-la, seria brutal; além disso escandaloso... oh! um formidável escândalo! . Que diabo então devia fazer?... Sim, no fim de contas, seria estúpido revoltar-se contra a rapariga'... ela o amava, tinha vinte anos, e queria casar nada mais justo!” E resolveu mudar de tática, empregar meios brandos e carinhosos para acabar com aquela situação. “Era o caminho mais curto e mais seguro!” Aproximou-se pois de Ana Rosa, muito temo. e disse-lhe afetuosamente, depois de enxugar-lhe o suor da testa e consertar-lhe o desalinho dos cabelos:

— Mas, querida prima, o fato de amar-me não e motivo de choro!... ao contrário — devemos alegrar-nos! Veja como estou satisfeito, estou rindo! Siga o meu exemplo! E sabe o que nos compete fazer de melhor? — Não é chorar certamente! — é casar-nos! Não acha? Não lhe parece mais acertado? Não me aceita para seu esposo?...

Ao ouvir isto, Ana Rosa tirou logo o lenço do rosto e, o que ainda não tinha feito, encarou Raimundo, desassombrada, feliz, rindo-se, com os olhos ainda vermelhos e molhados, a respiração soluçosa, sem poder articular palavra. E, em seguida, com um desembaraço, que abismou o primo e de que ela própria não se julgaria capaz, abraçou-o amplamente, com expansão, pousando-lhe a cabeça no ombro e estendendo-lhe os lábios numa ansiedade suplicante.

O rapaz não teve remédio — deu-lhe na boca um beijo tímido. Ela respondeu logo com dois — ardentes. Então, o moço, a despeito de toda a sua energia moral, perturbou-se — esteve a desabar — um fogo subiu-lhe à cabeça; latejaram-lhe as fontes; e, no seu rosto congestionado e cálido sofregamente o nariz muito frio de Ana Rosa. Porém teve mão em si: desprendeu-se dos braços dela com muita brandura, beijou-lhe respeitosamente as mãos e pediu-lhe que saísse.

— Vá, sim? Podem vê-la!... Isto não é digno de qualquer de nós...

— Você está maçado comigo Raimundo?

— Não que lembrança! mas vai-te, sim?

— Tens razão! mas olha, quando me pedes a papai?

— Na primeira ocasião, dou-te a minha palavra! mas não voltes aqui, hein? — Sim.

E saiu.

Raimundo fechou a porta e começou a passear pelo quarto, bastante agitado. Estava satisfeito consigo mesmo: apesar dos seus belos vinte e seis anos, tinha sido leal e generoso com uma pobre rapariga que o amava.

E, de contente, cantarolou, com a voz ainda um pouco trêmula:

“Sento uma força indômita!”

Mas bateram duas pancadas na porta. Era o Benedito.

— Sinhô mandou dizer para vossemecê fazer o favor de chegar no quarto dele.

—Vou já

A viagem ao Rosário ficou transferida para o outro mês, em razão de Manuel haver — caído — com uma tremenda papeira, justamente no dia em que Raimundo surpreendera Ana Rosa no seu quarto.

Nessa noite encheu-se a casa de amigos; o Freitas apareceu logo, trazendo uma dose homeopática; discutiu-se a moléstia; contaram-se fatos adequados Cada qual tivera um caso muito pior que o de Manuel! Choviam receitas de todos os lados.

— Laranja-da-terra! laranja-da-terra! gritava D. Maria do Carmo. E afiançava que “abaixo de Deus, não havia remédio melhor para aquele mal! “

— Não! olhe que as papas de linhaça têm provado muito bem... considerou Amância.

— Pois eu me achei foi com a folha de tajá, observou a sobrinha mais velha de D. Mana do Carmo.

— E eu, disse Etelvina com um suspiro, se quis dar cabo de uma que tive, recorri ao óleo de amêndoa doce!

(continua...)

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