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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

E viam-se chegar, quase sem intermitência, homens carregados de gigos de champanha, caixas de Porto e Bordéus, barricas de cerveja, cestos e cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus e leitões, canastras d’ovos, quartos de carneiro e de porco. E as janelas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente, saído do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças de carne em vinha d’alhos, prontos para entrar no forno. À porta da cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem depois de tirar-lhe a pele.

Todavia, cá embaixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos, o sedutor da Florinda, desaparecera durante a noite e um novo caixeiro o substituía ao balcão.

O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido:

— Sei cá! Creio que não podia trazê-lo pendurado ao pescoço!...

— Mas você disse que respondia por ele! repontou Marciana, que parecia ter envelhecido dez anos naquelas últimas vinte e quatro horas.

— De acordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter paciência!

— Pois então ande com o dote!

— Que dote? Você está bêbeda?

— Bêbeda, hein? Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de mostrar!

— Ora, não me amole!

E João Romão virou-lhe as costas, para falar à Bertoleza que se chegara.

— Deixa estar, malvado, que Deus é quem há de punir por mim e por minha filha! exclamou a desgraçada.

Mas o vendeiro afastou-se, indiferente às frases que uma ou outra lavadeira imprecava contra ele. Elas, porém, já se não mostravam tão indignadas como na véspera; uma só noite rolada por cima do escândalo bastava para tirar-lhe o mérito de novidade.

Marciana foi com a pequena à procura do subdelegado e voltou aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer enquanto não aparecesse o delinqüente. Mãe e filha passaram todo esse sábado na rua, numa roda-viva, da secretaria e das estações de polícia para o escritório de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas as partes.

Quando as duas, prostradas de cansaço, esbraseadas de calor, tornaram à tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fruta que não conseguiram vender na cidade, Marciana vinha tão furiosa que, sem dar palavra à filha e com os braços moídos de esbordoá-la, abriu toda a casa e correu a buscar água para baldear o chão. Estava possessa.

Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto uma porcaria! Parece que nunca se limpa o diabo desta casa! É deixá-la fechada uma hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!

E notando que a pequena chorava:

— Agora deste para chorar, hein? mas na ocasião do relaxamento havias de estar bem disposta!

A filha soluçou.

— Cala-te, coisa-ruim! Não ouviste?

Florinda soluçou mais forte.

— Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão.

E precipitou-se sobre ela com uma acha de lenha.

Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só carreira o pátio da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.

Ninguém teve tempo de apanhá-la, e um clamor de galinheiro assustado levantou-se entre as lavadeiras.

Marciana foi até o portão, como uma doida e, compreendendo que a filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos, olhando para o espaço. As lágrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E logo, sem transição, disparou da cólera, que a convulsionava desde a manhã da véspera, para cair numa dor humilde enternecida de mãe que perdeu o filho.

— Para onde iria ela, meu pai do céu?

— Pois você desd’ontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita. Fugiu-lhe, é bem feito! Que diabo! ela é de carne, não é de ferro!

— Minha filha!

— É bem feito! Agora chore na cama que é lugar quente! — Minha filha! Minha filha! Minha filha!

Ninguém quis tomar o partido da infeliz, à exceção da cabocla velha, que foi colocar-se perto dela, fitando-a imóvel, com o seu desvairado olhar de bruxa feiticeira.

Marciana arrancou-se da abstração plangente em que caíra, para arvorar-se terrível defronte da venda, apostrofando com a mão no ar e a carapinha desgrenhada:

— Este galego e que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão! Se não me deres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa.

A bruxa sorriu sinistramente ao ouvir estas últimas palavras.

O vendeiro chegou à porta e ordenou em tom seco à Marciana que despejasse o número 12.

— É andar! É andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã — rua!

(continua...)

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