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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Gregório demorou-se três anos em poder da condessa, e durante esse tempo recebeu a mais desvelada educação que se podia proporcionar a um filho querido. Margarida tomou-lhe verdadeiro carinho e só consentiu em separar-se dele, quando deu à luz a única filha que teve, Maria Luísa, aquela bela menina loura, que no começo desta narrativa costurava à luz do candeeiro de alabastro no palacete da Tijuca.

Gregório passou então para o colégio do barão de Totoepheus, onde cursou os seus primeiros estudos. A condessa, mal convalesceu do parto, voltou com o marido a Portugal, deixando tomadas todas as providências necessárias para que no Brasil nada faltasse ao filho adotivo, e sendo ao lado deste substituída por uma sua amiga, D. Florentina de Aguiar.

E agora, que Gregório está aboletado perfeitamente no colégio, com o seu belo enxoval de roupas brancas, os seus livros novos, a sua cama de ferro, a sua mesinha de cedro e a sua pequenina estante de madeira pintada, deixemos que ele se desenvolva e se vá preparando para entrar mais tarde nas cenas que o esperam; por enquanto, vamos acompanhar o Leão Vermelho, cuja vida transcendente tem de explicar muito dos episódios ocorridos nos passados capítulos e muitos episódios ainda não conhecidos do leitor.

CAPÍTULO XV

OS PAIS DE GREGÓRIO

Leão Vermelho pouco tempo se demorou pelas Antilhas; percorreu Cuba e Porto Seguro; foi feliz no comércio de tabaco, e tentou alargá-lo, entregando-se a novas especulações.

Os desgostos de família, a ausência de carinhos, a falta absoluta de alguém a quem se dedicasse ele de coração, deram-lhe ao caráter esse espírito ganancioso que se nota principalmente nos judeus desmanados ou nos padres católicos, aos quais as leis canônicas proíbem constituir o lar, a dedicação intima e o amor.

Mas o pai oficial de Gregório tinha inegável queda para fazer família. E a prova disso vai ver o leitor.

Dissemos que ele se lembrara de ampliar as suas especulações, e acrescentamos agora que Leão Vermelho não poderia encontrar melhor época para pôr em prática semelhante resolução. A guerra do Paraguai estava no seu apogeu; os comissários de todos os matizes enriqueciam da noite para o dia; chegar ao Paraguai com um carregamento de víveres e objetos de uso vulgar, era haver como certo o valor desses objetos dobrado vinte vezes a peso de ouro.

Leão Vermelho fez um grande carregamento com todo o dinheiro que ganhara nas Antilhas, e resolveu seguir para o Rio da Prata.

Teve porém de demorar-se no Rio de Janeiro mais tempo do que supunha, porque fora acometido pela febre amarela. Morava para as bandas de Catumbi, numa casa de pensão, dirigida por uma viúva ainda moça. Foi esta que se encarregou de o tratar, e com tanto empenho se dedicou a tão displicente tarefa, que o capitão, ao convalescer da febre, havia adoecido de uma outra enfermidade, cujos lenitivos só a própria enfermeira lhos podia ministrar.

E ministrou-os. Não a medir sovinamente as doses, como fazem os médicos, mas a franqueá-las liberalmente, como se quisesse utilizar as suas drogas, que se iam desvirtuando sem aproveitar a ninguém. De sorte que Leão Vermelho, ao partir para o Rio da Prata, já levava saudades da corte e já se sentia consolado quase das suas primeiras adversidades conjugais.

Os ressentimentos desapareceram afinal, mas as saudades foram avultando de tal forma, que o comissário acabou por acreditar que já lhe não era possível dispensar a consoladora companhia da viúva. Isso mesmo deixava ele provocado no calor das suas cartas e no interesse que punha nas palavras, sempre que falava em voltar para a casa de pensão da Sra. D. Henriqueta dos Santos. Esta, pelo seu lado, não podia deixar de ter na memória o querido hóspede, porque Leão Vermelho se fazia representar na sua ausência por um fenômeno fisiológico muito conhecido que ia roubando à viúva uma grande parte da elegância, e dando à sua cintura uma certa dilatação suspeita e respeitável ao mesmo tempo.

Quando, um ano depois, o comissário voltou ao Rio de Janeiro, em vez de ser recebido simplesmente pelos dois belos braços carnudos de D. Henriqueta, foi também recebido por mais outros dois, não tão provocadores, porém talvez mais belos e com certeza mais adoráveis: eram os bracinhos de uma filha.

O leitor não precisará fazer um grande esforço de inteligência para adivinhar que essa criança é Clorinda, a formosa criatura que havia de mais tarde cair nas garras do nosso Gregório.

Leão Vermelho continuava a prosperar; as especulações do Paraguai enchiam-lhe fartamente as algibeiras. D. Henriqueta desfez a casa de pensão, e dela conservou somente uma velha amiga de muitos anos: D. Januária; cumprindo deste modo, não só um dever de gratidão para com essa pobre senhora que fora por longo tempo o seu braço direito, como também evitando assim ficar só com a filhinha, durante as repetidas viagens do capitão.

(continua...)

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