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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

No seu temperamento, excessivamente lascivo, gozava com sentir ligado ao corpo precioso de uma mulher de estimação; comprazia-se em beber-lhe o hálito acelerado pela dança, embebedava-se com respirar-lhe os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante cheiro animal da carne.

Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante, atirou-se ao canto do divã em que estava Hortênsia.

Confessava-se prostrado, a limpar o suor do pescoço e da fronte. Fora imensa a valsa e ele cansara três pares, que se abateram inúteis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo.

— Apre! Disse.

As senhoras olhavam-no já com respeito, acompanhavam-lhe os menores movimentos com enorme interesse.

— Muito bem! Muito bem! Cochichou-lhe a mulher do Campos. - Ignorava que o senhor fosse tão forte na valsa!

E começaram a conversar sobre o mal que se dançava ultimamente. Ela declarou que uma das coisas que mais apreciava era uma boa valsa. Isso desde criança; no colégio, às vezes, as meninas passavam a hora do recreio dançando umas com as outras.

— Ninguém o diria...considerou Amâncio, fazendo-se muito seu camarada.– A senhora hoje só tem querido dançar quadrilhas.

Ela respondeu com um risinho significativo.

— Quer uma valsa comigo?.. perguntou o rapaz, em segredo, requebrando os olhos.

Não posso! Disse ela, quase com um suspiro. — Aceitaria de bom grado, mas não posso...

— Valha-me Deus! Por quê?

Porque...

Hortênsia sorriu de novo, sem ânimo de confessar a verdade. — o marido não gostava de a ver valsar. Também não se podia desculpar, dizendo que não sabia, porque ainda há pouco dissera justamente o contrário; afinal sem fazer empenho de ser acreditada acrescentou gracejando.

— Porque... porque me faz mal...

Amâncio prometeu que a conduziria devagar e que não dançaria longo tempo seguido; aceitava todas as condições, contanto que desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma valsa.

Hortênsia não respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E abanava-se, lentamente, como seguindo o vôo de um vago pensamento voluptuoso.

O quadro representava uma cena de Fausto e Margarida, no jardim (um longo beijo apaixonado que parecia soluçar entre a folhagem do painel. O encantado filósofo tomava nas mãos brancas a loura cabeça de sua amante, e sorvia-lhe alma pelos lábios. O sol morria ao longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava à sombra azulada de uma planta).

Hortênsia olhava para isso, enquanto, ao gemer das rabecas, cruzavam-se na sala os pares, marcando contradanças. O aroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses, misturava-se ao cheiro das mulheres, e penetrava a carne com a sutilidade de um veneno lento e delicioso como o fumo do charuto. Os ombros lácteos das senhoras, expunha-se nus à grande claridade artificial do gás; as jóias faiscavam; os olhos desfaleciam, e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e entorpecendo a alma.

— Então?...pediu Amâncio, pondo doçura na voz, — dance comigo, sim?...Faça-me a vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto...

E todo ele suplicava aquele obséquio, com o empenho apaixonado de que pede uma concessão de amor.

Ela dizia que não, meneando a cabeça; mas, um sorriso que se lhe escapava dos lábios, dizia o contrário.

— Então!...sim?...sim? um bocadinho só! Insistia o estudante, a devorá-la com os olhos.

Estava ainda cansado; a voz não lhe vinha inteira, mas quebrada, como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se luxuriosamente; as pernas principiavamlhe a tremer

— O que lhe custa à senhora dançar um pouquinho comigo?

E, vendo que ela não respondia, balbuciou em tom magoado, de criança ressentida:

— Bem, bem, não lhe peço mais nada, não a importunarei de hoje em diante. Desculpe!

Hortênsia voltou-se para ele, ia talvez desenganá-lo; mas a orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha, deu sinal par a “valsa”. Era o Danúbio de

Strauss.

O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar a rebate.

Ela não resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.

Dançaram. A princípio vagarosamente: depois, como a música se acelerasse, Amâncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração doida.

A música redobrou de carreira.

Foi então um rodar convulso, frenético: a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em torno deles.

Hortênsia dançava tão bem como o rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão mecânica.

Encheu-se a sala de pares. Amâncio fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados numa conjuntura amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respiração; os seus braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele; não podia fechar a boca, e seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do estudante.

De repente, Amâncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as respiração.

— Não! não! balbuciava ela, quase sem poder falar. — Ainda! Mais um pouco!

(continua...)

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