Por Aluísio Azevedo (1891)
— E aquela outra?... indagou Ângelo, mostrando um belo espectro coroado de rosas vermelhas.
— E Valéria, explicou Alzira.
— Valéria?...
— Sim, a infame e formosa Messalina. Supunhas talvez que a infeliz não tivesse ninguém para a acompanhar neste mundo ideal do amor!... Enganas-te; aquele que a segue, de olhos baixos, e cujo coração vês ainda palpitar sangrento através das brancas cavernas do peito, é o seu gentil escravo Ismael, a quem ela deu a virgindade do corpo, justamente na primeira noite do seu casamento com Cláudio.
E voltando-se para outro lado, acrescentou:
— Olha lá Aspásia e Alcibíades, Dido e Enélas, Safo e Faon. Vê como cada qual desliza esquecido no seu amor... Ali vem, prosseguiu ela, a linda e desditosa Gabriela; anda à procura da sombra de Henrique IV! Aquela outra é Laís; acompanha-a o esqueleto de Diógenes, trazendo ao pescoço a sua lanterna para sempre apagada...
Nesse instante desfilaram diante deles Marion de Lorme ao lado de Didier, e a pálida Margarida de Valois de braço dado com o duque de Guise. Alzira segredou o nome deles ao ouvido de Ângelo.
— E aquele par que se beija tão apaixonadamente?... perguntou-lhe este.
— Rizzio e Maria Stuart... A outra que diz agora um segredo ao seu cavalheiro, é Bianca Capelo.
— E essa que aí vem tão soberana?
— Impéria. Conheces aqueles dois?... Helena e Páris...
— E o outro par?
— Catarina da Rússia. O soldado que a acompanha, ninguém sabe quem é...
— E esta, quem será? olha o seu porte carrancudo e altivo!
— Lucrécia Bórgia, segredou-lhe Alzira.
Mas uma geral agitação começava a apoderar-se de todos aqueles casais de espectros. A música do órgão, até aí arrastada e lenta, principiou também a fazer-se nervosa, acelerando o seu andamento, até transformar-se num infernal galope, que arrebatava o turbilhão das sombras numa vertigem doida.
E, freneticamente, puseram-se todas a dançar, aos beijos e aos abraços passando e perpassando no delírio de uma dança sensual.
— Que é isto agora?... perguntou Ângelo, prendendo o braço na cintura de Alzira. Por que é que todos se agitam deste modo?
— Ah! explicou ela com um espreguiçamento voluptuoso. É um frenesi de amor...
E suspirou luxuosamente.
— Não compreendo...
— É que Deus, elucidou a cortesã, nos seus bons momentos de ternura afaga os mundos, e essa carícia lhes produz lascivos estremecimentos. Neste instante um súbito espasmo sensual percorre toda a natureza. Em cada corpo animado há um sobressalto de amor. Neste instante toda a criação se predispõe a procriar; as feras e as borboletas, os homens e as boninas, acoitam-se e beijam-se, para garantia da interminável cadeia da vida! Olha! Vê! Todos se afagam! Todos se abraçam! ...
— Sim! sim! exclamou Ângelo. Eu mesmo sinto percorrer-me o corpo um sobressalto estranho!
Alzira atirou-lhe os braços em volta do pescoço, e arrastou-o para o turbilhão das sombras que giravam aos pares.
E ouviu-se um coro de vozes, entrecortado de suspiros, a cantar, dançando:
Tenhamos amores! Ó feras! Ó flores! Condores! Panteras!
Amai-vos! Amai-vos!
E seguia-se um crepitante estribilho de beijo
Cruzai vossas
graças,
Ó entes
De raças
Diferentes!
Ó gentes,
Amai-vos! Amai-vos!
E novos beijos se estalavam.
E o frenesi chegou ao auge do delírio, e as vozes e os suspiros perderam-se todos num só grito, prolongado e agudo, um ai supremo, que resumia todas as vozes da natureza.
Houve um instante de espasmo, em que todos aqueles espectros fremiram consultivamente, chocalhando os ossos uns com os outros. Depois a música foi de novo enfraquecendo, e os gemidos foram-se apagando, como as derradeiras notas de uma cantante caravana que se afasta.
E um desfalecimento geral empalideceu mais ainda a trêmula chama das piras, e os espectros começaram a dissolver-se à fulgurante luz da aurora, que ralava lentamente, atravessando a imensa abóbada fantástica.
E brancas figuras esbatiam-se, vaporosas como as cambraias da manhã, que o sol desfia e esgarça com a dourada ponta dos seus raios. Ângelo mal podia já distinguir a sua amada.
— Alzira? disse ele.
— Adeus... respondeu o eco fugitivo de uma voz de mulher. Aí chega o dia'...
separemo-nos!...
— Quando voltas?
— À noite, sem falta! Às mesmas horas de ontem ...
E o murmúrio de um beijo esvoaçou-lhe nos lábios.
— Adeus...
E Ângelo abriu os olhos.
Acordara.
Ergueu-se com um salto. O dia entrava-lhe já pelas vidraças da janela, o sino da igreja repicava chamando para a missa.
CAPÍTULO VIII
Ela! Sempre ela!
Pobre Ângelo! Sua alma tinha remorsos daquela noite passada em companhia de Alzira. Travava-se dentro dele. uma pungente revolta contra o misterioso inimigo, que assim o arrancava à doce e honesta tranqüilidade do leito, para levá-lo de rastos, como um perdido, pelos barrancos da fantasia, obrigando-o a percorrer antros sensuais, ao lado do fantasma de uma cortesã, que o ameaçava de voltar todas as noites.
— Maldita sejas tu, imunda fantasia! pensava ele, maldita sejas tu, danosa imaginação! Ah! se pudesse eu fechar-vos entre os dedos e reduzir-vos a pó!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.