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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Era um velho, filho do Porto, que aqui se viera estabelecer há muitos anos, e que ajuntara no oficio boas patacas. Apenas chegou e viu o doente declarou que em poucos dias o poria de pé; bastava que ele tomasse umas pílulas que lhe ia mandar da sua botica: eram um santo remédio, segundo dizia, mas custavam um bocadinho caro, porém valia a vida de um homem. A comadre quando ouviu falar em pílulas franziu a testa.

— Pírolas, disse consigo; então o negócio é sério; e eu, que tenho má fé com pírolas; ainda não vi uma só pessoa que as tomasse que escapasse.

E avermelharam-se-lhe imediatamente os olhos.

O boticário retirou-se levando consigo o Leonardo, que trouxe as pílulas. A comadre, olhando para elas, abanou a cabeça.

— Ora, disse, eu pensei que ele lhe mandasse dar alguns banhos; cá por mim com alecrim havia de pô-lo bom.

A comadre tinha razão até certo ponto, pois que no fim de três dias, depois de feitos todos os preparos religiosos, o compadre deu a alma a Deus.

D. Maria tinha sido chamada nesse mesmo dia, e compareceu com Luisinha e com todo o seu batalhão de crias; tinham vindo também algumas outras pessoas da vizinhança.

Estavam todos sentados em um grande canapé, na varanda, e conversavam muito entretidos sobre os objetos mais diversos; algumas achavam mesmo na conversação motivo para boas risadas; de repente abriu-se a porta do quarto, e a comadre saiu de dentro com o lenço nos olhos, soluçando desabridamente e repetindo em altos gritos:

— Bem dizia eu que tinha pouca fé nas pírolas; está para ser o primeiro que eu as veja tomar e que escape... Coitado do compadre... tão boa criatura... nunca me constou que fizesse mal a ninguém...

Estas palavras da comadre foram o sinal de rebate dado à dor dos que se achavam presentes; desatou tudo a chorar, e cada qual o mais alto que podia. O Leonardo sofreu um grande choque, e no meio do seu atordoamento encolheu-se em cima do canapé com a cabeça sobre os joelhos, chegando-se, naturalmente sem o querer, porque a dor o perturbava, o mais perto possível de Luisinha. Continuaram os mais no seu coro de pranto dirigidos pela comadre; mas não se contentavam só com o pranto, soltavam também algumas vezes exclamações em honra do defunto.

— Sempre foi muito bom vizinho, nunca tive escandalos dele, dizia uma.

Era a vizinha que augurava mau fim ao Leonardo, e com quem o compadre brigara por este motivo umas poucas de vezes.

— Boa alma, dizia D. Maria, boa alma; havia de ser como ele quem quisesse ter boa alma.

— Eu que lidei com ele, dizia a comadre, é que sei o que ele valia; era uma alma de santo num corpo de pecador.

— Bom amigo...

— E muito temente a Deus...

Prolongada esta cena por algum tempo, despediram-se algumas pessoas, outras ficaram ainda. Foi serenando o pranto, e daí a pouco D. Maria, enxugando ainda os olhos, explicava detalhadamente a uma outra senhora que se achava junto dela a história genealógica de cada uma de suas crias que se achavam presentes.

Finalmente retiraram-se todos, exceto D. Maria, a sua gente e a comadre, que estava desde que o compadre adoecera tomando conta da casa.

Aproximou-se a noite; acenderam-se velas junto do defunto; fizeram-se todos os mais arranjos do costume.

D. Maria e a comadre começaram a conversar, porém baixinho.

— Então, senhora, principiou D. Maria, este homem não havia morrer assim sem ter feito seu testamento; pois ele não havia de querer deixar no mundo o afilhado ao desamparo para os ausentes se gozarem do que a ele lhe custou tanto trabalho.

— A mim, respondeu a comadre, nunca me falou em semelhante coisa; mas enfim, como isso são lá negócios de segredo... talvez.

— Seria bom procurar-se; talvez em alguma gaveta por aí se ache; é impossível que o defunto não dispusesse sua vida; bem vezes lhe aconselhei eu semelhante coisa.

— Tem razão, D. Maria, eu acho também que deve haver alguma coisa.

E foram as duas tratar de procurar o testamento nas gavetas de uma grande cômoda que havia no quarto do defunto. Enquanto nisso se ocupavam, Luisinha e Leonardo conversavam, ou antes cochichavam, como se diz vulgarmente. O que eles se diziam não posso dizê-lo ao leitor, porque o não sei; sem dúvida a rapariga consolava o rapaz da perda que acabava de sofrer na pessoa do seu amado padrinho.

Finalmente as duas acharam com efeito um testamento, e ficaram com isso muito satisfeitas.

Voltaram à varanda e surpreenderam os dois no melhor da sua conversa. A comadre vendo-os sorriu-se, e D. Maria, fazendo sem dúvida a respeito do que estavam eles falando o mesmo juízo que nós, disse enternecida:

— Ela tem muito bom coração!

— E o dele não é pior, respondeu a comadre.

E acrescentou com intenção:

— Estava um bom casal.

— Oh! senhora, disse D. Maria com ingenuidade, deixe a menina, que ainda é muito cedo...

— Também não digo já, mas a seu tempo.

D. Maria sorriu-se com um sorriso de que a comadre não desgostou. Mudaram de conversa.

(continua...)

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