Por Franklin Távora (1879)
— Uma semana depois, comecei a notar grande mudança no Dr. Ângelo. No domingo, faltou ao retiro; no sábado anterior, já tinha faltado ao chá em casa do Sr. Martins, onde, havia mais de um mês, era um dos hóspedes mais certos. Então, pelas conversações dos moços que estiveram presentes , eu inferi que ele estava apaixonado pela Júlia (tal é o nome da atriz). Oh! D. Maurícia, quando me convenci que ele me deixava por essa mulher que nunca será capaz de lhe ter o amor que eu sinto por ele, oh! não sei como não me estalou a cabeça! Há mais de um mês que dura o meu tormento. Não vê como estou? O sono fugiu dos meus olhos, o prazer abandonou a minha alma. Com a minha tristeza, mamãe anda aflita. Ela sabe de tudo o que se passou entre mim e ele. Tem procurado consolar-me, mas não há consolação para quem sofre como eu. Entrei nesse amor com toda a minha existência. Eu via no Dr. Ângelo, não só a minha felicidade, mas a minha nobreza. Considerava-o já uma parte de mim mesma, quando entre mim e essa parte em que estavam concentrados todos os meus afetos se interpôs fundo abismo, e eu fiquei com todas as angústias que deixa o ladrão no espírito da pessoa a quem roubou o maior tesouro.
Dizendo estas palavras, Sinhazinha deu largas ao seu pranto; e Maurícia, que, no começo da narrativa a ouvia com intenção reservadamente hostil, não pode deixar de comover-se. As lágrimas da ingênua moça eram irmãs das suas; vinham do fundo do coração, porque tinham por origem o amor infeliz.
Maurícia pegou de uma das mãos de Sinhazinha como quem queria animá-la a prosseguir suas queixas, que pareciam poder mais do que ela. Sinhazinha continuou:
— Lembrei-me, então, da senhora para me ajudar a tirá-lo do poder deste monstro encantador que o traz tão escravizado aos seus mágicos feitiços.
— De mim, Sinhazinha, lembrou-se de mim? - inquiriu Maurícia, repentinamente.
— Eu sei que o Dr. Ângelo a tem no maior conceito. Não fui testemunha do modo como ele a tratou no domingo em que estivemos todos reunidos por ocasião do aniversário natalício de D. Eugênia?
— Não tenho a menor importância para ele. Atualmente eu me considero objeto do seu ódio.
— Do seu ódio! Não diga isso. Por que é que ele há de ter-lhe ódio?
Compreendendo que se tinha excedido na revelação do seu juízo íntimo, Maurícia acrescentou, imediatamente:
— Ouviu-o falar alguma vez em mim depois da minha reconciliação com meu marido?
Sinhazinha guardou silêncio por alguns momentos, parecendo procurar na lembrança a resposta que aí não podia achar.
— Ele só tem para mim atualmente ódio, desprezo, ou, pelo menos, indiferença, concluiu Maurícia.
— Por quê?
— Porque vendo-me tornar à companhia do homem, que me infligira as maiores humilhações, inferiu talvez ou que eu me não sinto, ou que tudo quanto me ouvira dizer a respeito desse homem era pura invenção. O Dr. Ângelo, Sinhazinha, não há de formar ainda de mim o juízo que já formou. Aos seus olhos, eu devo ser hoje uma mulher vulgar, senão desprezível. Quantas vezes não terá dito consigo: “Como me enganei com ela!” E, demais não poderia eu fazer para dissuadi-la de prosseguir no caminho escolhido pelos seus sentidos ou pela sua alucinação? O seu apelo a mim, Sinhazinha, é de todo ponto inútil. Em nome de que sentimento deveria eu falar-lhe a seu favor? Que autoridade tenho? Que armas poderia empregar?
Sinhazinha, corando de pudor, pôs um dos braços à roda do pescoço de Maurícia, e em voz branda e tímida respondeu como quem lhe segredava ao ouvido grave revelação.
— A senhora tem a autoridade do seu talento, tem as armas das suas graças a que ninguém resiste.
— Quanto você é ingênua! - exclamou Maurícia.
— Que quer que eu lhe diga? - respondeu a jovem lacrimosa. Toda a minha confiança, toda a minha esperança está posta na senhora. Diz-me o coração que se a senhora tomar a si a minha causa ela triunfará. Condoa-se de mim, minha querida amiga. Este amor é hoje a minha existência; sem ele, que será de mim? Olhe, eu tenho refletido muito no meu estado e nos meios de conjurar os males que sobre ele pesam. Há mais de um mês que o Dr. Ângelo não aparece em casa do Sr. Martins; mas se ele souber que a senhora vai passar alguns dias na estrada, ele há de voltar; e talvez com ele volte para mim a felicidade. Seja o meu bom anjo, D. Maurícia. A ocasião é oportuna. Há mais de três meses que a senhora não vai ao Recife.
Maurícia, sem dizer sim, nem não, levantou-se a modo de distraída por oculto pensamento. Entre as músicas que estavam sobre a mesa, escolheu uma que pôs na estante do piano e entrou a tocar e a cantar. Sua voz tinha particular ternura. Eram graciosas as harmonias, mas tristes, quase dolorosas.
CAPÍTULO XVI
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.