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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Os antigos já o diziam, replicou d. Maria e os antigos não diziam senão a verdade. Minha avó contava-me muitos casos de guerras, em que os que vinham a tomar Goiana ficavam destruídos ou presos nela, e nunca a puderam dominar. Os santos das igrejas olham pelos moradores. Vão lá contar destas historias a Antonio Coelho e a Jeronimo Paes, que hão de vê-los responder à crença do povo com risos mofadores. É porque eles são dois refinados hereges, disse a velhota. E como hereges hão de acabar. Quem for vivo há de ver. Talvez que nesta guerra mesma que eles preparam, venha o seu fim encoberto.

O crepitar das labaredas com que as fogueiras iluminavam todo o largo pátio do engenho; as detonações das armas de fogo que de todos os lados estavam indicando quanto o S. João é estimado pelo povo, fizeram enfim inclinar para a festa as atenções até então absorvidas nas tristes apreensões que o grave acontecimento suscitava.

Como se compreendessem a conveniência de auxiliar esta nova disposição dos espíritos, as escravas copeiras entraram nesse momento na sala, conduzindo bandejas com bolos e doces, de que começaram a servir-se os hospedes. Dentro em pouco a conversação, ainda presa por uma ponta à guerra, espalhava-se pela outra em vários assuntos mais próximos e positivos. Praticou-se da abundância das chuvas, e do mal que tinham feito às canas e à roça; da escassez da farinha; da carestia da fazenda.

A razão porque a farinha não aparece no mercado, observou Manoel de Lacerda, é porque os mascates se atravessam e compram por atacado a que encontram. A razão do alto preço da fazenda é porque são eles os que a vendem.

Vai por estes dias à praça o engenho de Martins por execução que lhe move o Porto, disse Felipe Cavalcanti. Por um ano que Porto levou a suprir o engenho de Martins, fez-se credor deste em avultada quantia. Absorveu-lhe três ou quatro safras, e por fim, não contente com este resultado ainda, propôs-lhe ação em juízo e o obriga agora a dar o engenho a pagamento. Entretanto, observou Cosme Bezerra, Porto está rico. O açúcar, que recebia do Martins, em pagamento, a 400 réis a arroba, remetia a seus correspondentes na Europa à razão de 1$400.

- Só por este modo poderia ele abrir os dois importantes armazéns que estabeleceu no Beco-do-pavão, observou Jorge Cavalcanti.

- E que é feito de Martins? Perguntou um.

- Está pobre, e é hoje meu lavrador, respondeu Matias Vidal.

- E não havemos de pegar em armas contra os mascates! Exclamou Cosme Bezerra.

Foi neste ponto interrompida a conversação pela entrada de Francisco e de Lourenço. Vendo-os, o sargento-mór chamou-os ao gabinete onde minutos antes se celebrara em família a grave conferencia a que assistimos.

- Aqui está o rapaz, seu sargento-mór, disse Francisco, entrando no gabinete.

Estava impaciente pela tua volta. Dize-me cá. O rapaz poderá partir para a capital, ao nascer da lua?

- Quem? Eu? perguntou Lourenço.

- Tu mesmo, Lourenço.

- Posso partir já, assim o ordene vosmecê.

- Estás pronto de tudo?

- De tudo estou, porque nada tenho que aprontar.

- Se Francisco não tivesse chegado há pouco, ele é que havia de ir. A incumbência é de gravidade.

- E que tem que eu tivesse chegado há pouco? Perguntou o matuto.

- Estás cansado. Já não és menino para resistires a duas jornadas forçadas uma atrás da outra.

Perdoe-me vosmecê, seu sargento-mór. Muito me agrada fazer pessoa em meu filho. Mas se é somente por me supor cansado da viagem que o escolheu, dê preferência a mim, para ir à cidade, eu devo dizer a vosmecê que estou mais pronto do que ele para fazer a viagem. Faço de conta que tomei o rancho em Goiana, e que a minha parada é na Paraíba. Lourenço é digno de toda a confiança dos homens de bem. mas é ainda muito moço, tem viajado pouco por esses caminhos, e sem ele o querer, pode sair o seu serviço mal feito. Vosmecê entregue-me o que tinha para ele, que em menos de uma hora já estou no caminho de Olinda. Só peço licença para ir ao Cajueiro dar um adeus à minha velha. - Pois vai. Quando voltares, receberás as minhas ordens. - Senhor, sim.

Dentro de poucos minutos, pai e filho estavam no Cajueiro; e quando a luz apontava por cima da mata, já aquele se achava uma légua distante da vila, em direitura para a capital.

XVI

Lauriano tinha sua tenda na rua do Rosário, perto da loja de Antonio Coelho. Era, como quase todos os sapateiros, paroleiro, indagador da vida alheia, e por isso sabedor de muita particularidade e segredo intimo. Seus freqüentadores não tinham nem podiam ter para ele reservas.

(continua...)

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