Por Franklin Távora (1876)
Alguns, não sem razão, mostravam-se receosos de que, quando menos se esperasse, ele viesse forçar a cadeia do Recife onde tinham sido postos a ferro os novos presos, e restituindo-lhes a liberdade de que tão mau uso haviam feito, se pusesse com eles novamente em campo para matar com maior ferocidade que dantes, roubar sem tréguas, incendiar povoações, reduzir tudo a sangue, ossos e cinzas.
O governador entretanto mal podia conter a. sua satisfação diante do resultado das providências que ele próprio havia indicado para a extinção dos bandos dos criminosos que infestavam a província.
Ele conhecia melhor do que o povo e os figurões da vila e da capital, as dificuldades, algumas delas invencíveis, que se atravessam naturalmente diante de expedições semelhantes. Ele sabia que perseguir através do deserto, para reduzi-los à prisão, homens que vivem como as feras, e com elas, no seio de escusas brenhas, de regiões inóspitas e desconhecidas, é empresa para grandes ânimos, raros em todos os tempos e em todas as terras, máxime naquelas terras em que, como em todo o Brasil então, o importante serviço da polícia está por ser organizado, à míngua de pessoal apto para isso, de recursos pecuniários, de vias de comunicação interior, de prisões e de outros muitos elementos indispensáveis a este grande mister.
A cadeia, que por poucas alterações passou há poucos anos a fim de servir, como serve, para casa do júri e do tribunal da relação, tinha sido dada por pronta pelo coronel de engenheiros Costa Monteiro, à câmara nos fins de 1732, e preenchia todas as condições de segurança pela sua solidez. Não obstante, ordenou o governador que a sua guarda fosse confiada a forças duplas que tornassem impossível qualquer tentativa de invasão ou de arrombamento. As vizinhanças ofereciam o aspecto de uma praça de armas, principalmente dos lados do norte e leste onde a vigilância nunca seria demasiada, por oferecer o rio destes lados fácil e natural acesso ao edifício.
As pessoas de sua intimidade que lhe manifestavam descontentamento por não ter sido preso o Cabeleira, respondia o governador:
— Há de chegar a sua vez. Confio muito em Cristóvão de Holanda Cavalcanti que ainda não deixou de corresponder aos intuitos do governo sempre que se trata do proveito da colônia.
Cristóvão de Holanda Cavalcanti, que trazia, como se vê, o nome que seu pai, sargento das ordenanças, ilustrara por ocasião da memorável Guerra dos Mascates, era o capitão-mor de Itamaracá, e achava-se a esse tempo em Goiana.
Goiana pertencia então à jurisdição de Itamaracá, que deixara de ser em 1763 capitania independente, por havê-la comprado d. João V a José de Góis, para incorporá-la na capitania de Pernambuco, vendida à coroa em 1716 pelo conde de Vimioso, d. Francisco de Portugal, único genro de Duarte de Albuquerque Coelho, 4.° donatário de Pernambuco.
Era uma modesta povoação em 1636, quando os esforços de Antônio Filipe Camarão que a defendeu com o valor que o caracterizava, não foram bastantes a tolher que ela caísse no poder dos holandeses, povo cheio de grandeza, e digno da admiração e do reconhecimento dos pernambucanos. Tendo-se mudado em 1685 para esta povoação a câmara da capitania de Itamaracá, passou ela por este fato à categoria de vila. Em 1742 deu-lhe d. João V um ouvidor que foi substituído em 1808 por um juiz de fora. A sua crescente prosperidade foi parte para que pela lei provincial de 5 de maio de 1840 fosse elevada à cidade.
De presente é Goiana a cidade pernambucana de mais nota, depois do Recife, a capital, e de Olinda que figurou, com brilho e bizarria inexcedíveis nos tempos coloniais.
Está em condições, não só de competir com as primeiras cidades interiores do norte e do sul do Império, e de se avantajar às capitais de algumas províncias que, por motivos de alta conveniência deixamos de apontar aqui, mas até de rivalizar com algumas cidades européias de que não pouco se fala nas narrações de viagens.
E se não, vejamos.
Tem um paço municipal muito decente na rua Direita, e uma matriz e mais oito templos que podem pertencer sem desaire a uma capital.
Tem uma praça de comércio, a qual se estende desde a rua chamada Portas de Roma (denominação do tempo dos jesuítas) até ao Beco do Pavão, para não dizermos até à rua do Meio, ou à rua do Rio.
Tem um teatro onde já tive ocasião de ver representar-se o "D. César de Bazar", os "Dois Renegados", a "Corda Sensível" e o "Judas em Sábado de Aleluia".
Tem cafés e bilhares, brinca o Carnaval pelo inverno, toma sorvetes pelo verão, dá alguns saraus pelo Natal; enfim, para estar inteiramente na moda, trata de iluminar-se a gás, de fundar uma biblioteca popular, e tem já fundada uma loja maçônica, denominada Fraternidade e Progresso, a qual tem prosperado notavelmente depois das últimas excomunhões que o público sabe.
É uma cidade onde se pode viver com poucos meios, porque os habitantes são hospitaleiros, os senhores de engenho fazem pingues presentes, os negociantes vendem fiado e não executam os devedores.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.