Por José de Alencar (1875)
Enquanto a mulher e as filhas sufocavam de interesseiros agrados e bajulações a órfã, a quem tinham faltado quando pobre com a mais trivial caridade, o Lemos, expedito em negócios, arranjava do juiz de órfãos a nomeação de tutor da sobrinha.
De primeiro impulso, Aurélia pensou em revoltar-se contra essa nomeação, mostrando ao juiz a infame carta que lhe escrevera o tio; mas além de repugnar-lhe o escândalo, sorriu-lhe a idéia de ter um tutor a quem dominasse.
Aceitou pois o tio, mas com a condição que já sabemos, de morar em casa sua, e não ter relações com uma família cuja presença lhe recordava a injúria feita à sua mãe. Isso mesmo disse-o à ti e primas, quando estas se esforçavam por cobri-la de carícias.
A riqueza, que lhe sobreveio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência ao fastígio, operou em Aurélia rápida transformação; não foi, porém, no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução; estes eram inalteráveis, tinham a fina têmpera do seu coração. A mudança consumou-se apenas na atitude, se assim nos podemos exprimir, dessa alma perante a sociedade.
Com uma existência calma e um amor feliz, Aurélia teria sido meiga esposa e mãe extremosa. Atravessaria o mundo como tantas outras mulheres envoltas nesse cândido enlevo das ilusões, que são a alva pura do anjo, peregrino na terra.
Mas a flor de sua juventude, ela viu desabrochar na atmosfera impura das torpes seduções que a perseguiam. Sem o nativo orgulho que protegia sua castidade, talvez que o torpe hálito do vício lhe maculasse o seio. Mas teve força para cerrar-se, como o cacto à calma abrasadora, e viveu de seus próprios sonhos.
Cortejando o seu formoso ideal com o aspecto sórdido que lhe apresentava a sociedade, era natural entrasse a desprezá-la, e a olhar o mundo como um desses charcos pútridos, mas cobertos por folhagem estrelada de flores brilhantes, que não se podem colher sem atravessar o lodo.
Daí o terror que sentia ao ver-se próxima desse abismo de abjeções, e o afastamento a que se desejava condenar. Bem vezes revoltavam-lhe a alma as indignidades de que era vítima, e até mesmo as vilanias cujo eco chegava a seu obscuro retiro. Mas que podia ela, frágil menina, em véspera de orfandade e abandono, contra a formidável besta de mil cabeças?
Quando a riqueza veio surpreendê-la, a ela que não tinha mais com quem a partilhar, seu primeiro pensamento foi que era uma arma. Deus lhe enviava para dar combate a essa sociedade corrompida e vingar os sentimentos nobres escarnecidos pela turba dos agiotas.
Preparou-se pois para a luta, à qual talvez a impelisse principalmente a idéia do casamento que veio a realizar mais tarde. Quem sabe, se não era o aviltamento de Fernando Seixas que ela punia com o escárneo e a humilhação de todos os seus adoradores?
Logo nos primeiros dias que seguiram-se à abertura do testamento, Aurélia tratou de pagar as dívidas de sua mãe e recompensar os serviços que lhe haviam prestado durante a enfermidade de D. Emília várias pessoas pobres da vizinhança. Nessa ocupação a ajudava o Dr. Torquato Ribeiro, com quem ela se aconselhava, sobretudo acerca dos negócios da tutela. O bacharel não advogava, mas consultava aos colegas para satisfazer a menina e dirigi-la com acerto.
- Também temos uma dívida a saldar entre nós dois, disse Aurélia; mas essa fica para depois. Não lhe pago agora.
- Uma bagatela! Tornou-lhe Ribeiro.
- Oh! Não sabia que era tão rico.
- Sou pobre, bem sabe, D. Aurélia.
- Sei; se fosse rico, nunca seria sua devedora. A despesa que fez com o enterro de minha mãe deve fazer-lhe falta.
- Perdão, não fui eu.
- Quem foi, então? Perguntou Aurélia no auge da surpresa.
Ribeiro tirou a carteira.
- Nunca lhe falei nisso com receio de afligi-la. No dia do falecimento de D. Emília, saí, como sabe, para tratar do enterro; já tinha dado muitas voltas inúteis quando recebi esta carta sem assinatura. Aceitei, porque não havia outro recurso; eu não tinha de meu vinte cruzeiros.
A carta continha estas palavras apenas: "Previne-se ao sr. Dr. Torquato da Costa Ribeiro que o enterro da sra. D. Emília Camargo já foi encomendado e pago por uma parenta da mesma senhora".
Aurélia leu a carta cuja letra lhe era desconhecida e guardou-a.
- Então devo-lhe somente cinqüenta cruzeiros, que pagarei quando for maior. Agora peço-lhe que receba esta lembrança.
A lembrança era o retrato da moça em um quadro de ouro maciço, cravejado de brilhantes, cujo valor bruto, desprezado o feitio, valia mil cruzeiros.
O bacharel compreendeu a intenção da moça, que era dar-lhe por aquela fomra delicadíssima um auxílio pecuniário de que ele bem carecia.
Refletiu um instante, e resolveu aceitar com franqueza e sem falsa modéstia.
- Agradeço-lhe seu mimo, D. Aurélia. Acima de tudo, mais ainda do que o próprio retrato, aprecio nele o que a senhora ocultou. Suas feições são apenas a cópia da beleza; a intenção é o reflexo da alma que Deus lhe deu.
Foi depois de passado os seis meses de luto, que Aurélia apareceu na sociedade.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.