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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Junto dêsse fogo estavam sentados sôbre couros o vaqueiro e outra gente da fazenda, com Aleixo Vargas, todos ocupados em despachar os largos tassalhos de carne, os quais iam cortando à vontade da carcaça de uma vitela, ainda enfiada na estaca de braúna que lhe servia de enorme espêto, e estendida por cima do brasido que a estava acabando de assar. 

A rês fôra morta à chegada do dono da fazenda. Uma banda, tinham-na cortado para cozinhar; a outra, aí estava de espetada. Dela haviam tirado o lombo para a ceia dos fidalgos; e do resto pretendiam os acostados dar conta naquela mesma noite, o que sem dúvida conseguiriam com a formidável colaboração de Aleixo Vargas. 

Nesse momento os cães, sentindo novamente rumor no mato, investiram a latir.

— Que é lá isso? gritou o vaqueiro erguendo-se. Temos novidade? 

— É a bicha que volta. 

— Pois então? Não há de cear também? Deixa a outra, amigo José Bernardo. 

A súcia levantara-se para seguir o vaqueiro ao outro lado, curiosa de saber o que havia. 

Dêsse breve instante aproveitou-se Arnaldo para atravessar o terreiro e coser-se à varanda. Pôde então escutar o resto da conversa. 

— Simule quantas razões lhe aprouver, primo Fragoso, é debalde: não me convence de que o mais chibante casquilho do Recife se lembrasse de vir a êste sertão ferrar bezerros e comer coalhada escorrida, que aliás não é mau petisco. 

— Eu estou com o Ourém, disse o capitão João Correia; não lhe acho muito jeito de fazendeiro, cá ao nosso amigo. 

— Bom caçador de boi, é êle, observou o Daniel Ferro. Quando está nos Inhamuns seu divertimento é atirar no gado barbatão. 

— E ande lá que não há de ser má caçada. 

— Excelente! afirmou Fragoso. 

— Mas então, Ourém, que feitiço é êste que traz o nosso amigo encantado por estas paragens? 

Marcos Fragoso preveniu a réplica: 

— Já que tamanho emprenho fazem em conhecer a verdadeira tenção desta jornada, não a ocultarei por mais tempo, nem é de razão; pois a quem primeiro comunicaria resolução de tanta monta do que a amigos de minha maior estimação? 

O mancebo reteve a palavra um instante, como para observar a surpresa que suas palavras iam causar nos companheiros e prosseguiu sorrindo: 

— Um dêsses próximos dias far-me-eis a graça de me acompanhar à Oiticica, onde irei pedir ao capitão-mór Campelo a mão de sua filha, a formosa D. Flor. 

Esta comunicação foi recebida com bravos pelos companheiros. 

— À gentil noiva! exclamou Ourém enchendo os copos. 

— E à ventura de tão acertado himeneu! 

Foi heróico o esfôrço que fez Arnaldo para conter-se ao ouvir o nome de D. Flor de envôlta com tais efusões. Reagindo ao violento impulso que o arrojava contra aqueles homens, arrancou-se dalí, e afastou-se precipitadamente. 

De longe voltou-se. 

Na sala, à claridade das lâmpadas, destacava-se o vulto elegante de Marcos Fragoso que se erguera da mesa. 

O sertanejo murmurou: 

— Roga a Deus que te livre desta tentação. 

XIX – Ao cair da tarde 

 

Os borraceiros do natal tinham continuado a cair por volta da madrugada; e o sertão de Quixeramobim, o mais formoso de todo o dilatado vale da Ibipiaba, vestia-se cada manhã de novas galas ainda mais brilhantes do que as da véspera. 

A terra, que adormecia com o fechar da noite, já não era a mesma que despertava ao raiar do sol. Como se a houvesse tocado o condão de uma fada, ela transformava-se por encanto: e mostrava-se tão louçã e donosa que parecia ter desabrochado naquele instante, como uma flor do seio da criação. 

Aí via-se realizada a graciosa lenda árabe dos jardins encantados, surgindo dentre os ermos e sáfaros areais à invocação de um nume benéfico. A gentil feiticeira dos nossos sertões é a linfa, que, descendo do céu nos orvalhos da noite e nas chuvas copiosas do inverno, semeia os campos de todas as maravilhas da vegetação. 

Era por tarde. 

O capitão-mór Campelo estava, como de costume, sentado em uma cadeira de alto espaldar, forrada de couro e colocada no largo patamar, que se prolongava de um e outro lado pelo alicerce, como um passeio. 

O fazendeiro, terminado o jantar que naquele tempo era ao meio-dia, fazia regularmente a sesta até passar a fôrça do sol, como ainda hoje se usa pelo sertão. Depois do que vinha sentar-se alí, no pórtico da casa, onde já se achava a sua cadeira senhorial, trazida por um pagem. 

Abrigado pela sombra do edifício que ia cair sôbre o terreiro, entendia com os negócios da herdade e provia a tudo quanto dependia de suas ordens. Se era preciso, montava a-cavalo, e transportava-se ao lugar onde se fazia necessária sua presença, quaquer fosse a distância, e devesse embora voltar alta noite ou pela madrugada. 

Em tudo isto, porém, não se afastava uma linha daquela gravidade metódica e pausada, que formava a compostura de sua pessoa e que êle julgava um dever imprecindível de sua importância e riqueza. 

Nessa tarde logo ao sentar-se, despediu o capitão-mór o pagem para chamar a toda pressa o Inácio Góis, que servia-lhe de vaqueiro da fazenda desde a morte do Louredo, pai de Arnaldo, o qual tivera por muitos anos êsse emprêgo. 

(continua...)

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