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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Cândido e Celina não falaram, mal se olharam; suspiraram porém, tremeram.

Ao crepúsculo recolheram-se ambos ao caramanchel, onde Anacleto e Irias conversavam ainda.

Em todo passeio Celina só observou um fenômeno: quando sua mão tocava menos de leve o braço de Cândido, o mancebo estremecia involuntariamente. Cândido pôde apenas notar, que se alguma vez seus olhos encontravam os de Celina, a moça corava muito, e mostrava-se enleada.

E no fundo do coração ambos se haviam perguntado, o mancebo, por que era que aquela moça corava?... a moça, por que era que aquele mancebo tremia?...

Eles se amavam.

As quatro personagens de que temos falado, deixaram enfim o Passeio Público.

Quando de volta se achavam exatamente defronte do “Purgatório-trigueiro”, um carro puxado por dois cavalos brancos se despedia do portão do “Céu cor-derosa”, e passou perto deles.

– O carro do sr. Salustiano, disse a velha Irias.

A noite escondeu um movimento de despeito, e um olhar de cólera que escaparam ao velho Anacleto.

Entraram todos quatro no “Céu cor-de-rosa”.

CAPÍTULO XV

O SENHOR E A ESCRAVA

MEIA HORA depois que Anacleto e Celina tinham saído para se dirigirem ao Passeio Público, um carro parou junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”, e Salustiano apeou-se dele.

Mariana, que o recebeu, estava só na sala.

Apresentou-se Salustiano com ar triunfante; a filha de Anacleto estava pelo contrário pálida, mas com semblante desdenhoso.

Sentaram-se ambos muito perto um do outro. Houve um curto silêncio, e Salustiano falou primeiro:

– Enfim, estamos um momento a sós, minha senhora!

– É verdade, respondeu com voz segura Mariana, eu preparei este momento.

– Como?...

A viúva levantou-se, foi fechar a porta da sala, e tomando de novo o seu lugar:

– O senhor mo havia exigido, disse; no serão de anteontem despediu-se de mim com estas palavras: “depois de amanhã, às cinco horas da tarde!” não foi assim...

– Ah! Sim... creio que sim, respondeu Salustiano, fingindo que se lembrava.

– E eu para obedecer-lhe, menti a meu pai; convidei-o para passear hoje à tarde, e na hora de sair queixei-me de um pequeno incômodo, e forcei-o com rogos a fazer o passeio só com minha sobrinha.

– V. Exa. é a mesma bondade!... disse o moço com insolente ironia.

– Oh! não! senhor; falemos seriamente; não há bondade da minha parte, nem polidez da sua. O caso é simples: aqui está um senhor e uma escrava.

A firmeza com que Mariana pronunciou essas palavras obrigou Salustiano a fazer um movimento de admiração.

– Porque, continuou ela, eu compreendo perfeitamente o que sejam as cerimônias, e as etiquetas em uma assembléia; mas quando se acham a sós, e cara a cara, duas pessoas que se procuraram adrede para tratar de uma questão cuja base, apesar de ser um segredo, é de ambos conhecida, para que, senhor, estar com vãs palavras encobrindo uma triste verdade?... para que vestir em belas roupas um horrível esqueleto?...

Mas enquanto Mariana assim se exprimia, retomara Salustiano seu sangue frio habitual, e já com seu insolente e costumeiro sorriso nos lábios, respondeu em tom de gracejo.

– É, minha senhora, que eu tenho minhas tendências para diplomata.

– Menos isso, senhor, tornou Mariana; pode sim um homem, imprevistamente dono do segredo de uma mulher, impor-lhe, por preço de seu silêncio, condições indignas; isso será apenas vilania... baixeza de alma; mas ridicularizar essa mulher, senhor?! oh já não é só vilania, é infâmia!

– Senhora! disse Salustiano.

– E preciso é que me conheça bem, que faça justiça a meu caráter. Se tenho tremido, se me tenho humilhado a seus olhos nas sociedades, é porque me curvo ante a pureza dos outros, e nunca porque dobre os joelhos ao seu poder. Quando estivermos sós, eu hei de conservar-me sempre na minha posição, alta, elevada muito sobre a sua; porque a vítima é sempre menos infame do que o algoz. A quem eu temo, a quem eu respeito, não é o senhor, é as almas nobres.

– Senhora!...

– Nada de falsas posições entre nós, continuou a viúva: o que somos ambos, ambos o estamos vendo. Eu sou uma mulher indigna, e o senhor é um homem baixo e vil. Suponhamos agora que nenhum de nós tem pejo, e falemos claramente um ao outro como dois sicários que tratam de um crime. Eis aqui como deve passar esta hora entre nós dois: creio que torno tudo muito fácil. O que quer o senhor de mim?...

Aquela mulher alta, bela, morena, de olhos cheios de fogo, orgulhosa e veemente, dava incrível força a suas palavras; com seu olhar ardente humilhava Salustiano, que ficou de novo espantado e em silêncio junto dela.

A viúva repetiu a pergunta que já havia feito.

– O que quer de mim, senhor?!

– Confesso, senhora, disse Salustiano, que não vinha preparado para uma conversação da natureza que parece desejar; todavia, pois que assim o quer, esforçar-me-ei por mostrar-me sem pejo, e falar-lhe como um sicário que com outro conversa sobre um crime.

– Bem; é isso mesmo: o que quer, pois?...

– Primeiramente quero saber quem é este mancebo que tão assiduamente freqüenta a sua casa, e a quem ouço dar o nome de Cândido.

(continua...)

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