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#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

O Saisset estreou-se auspicioso em 1824 (ou no fim de 1823), e foi arranjando fortuna; mas passados cerca de quatro anos, em que bateu moeda, veio-lhe inesperada adversidade da formosura, e do vinho.

Mme Saisset era lindíssima, conforme o testemunho dos seus jovens contemporâneos e hoje velhos choradores do passado; tinha, porém, a fraqueza de saber de mais que o era, e de gostar que a admirassem.

O Saisset, homem extremamente delicado no trato, de gênio brando e pacífico, e que muito se desvanecia da beleza da esposa, tinha também sua fraqueza; amava além de Mme Saisset o vinho de Borgonha, e às vezes depois do jantar mudava de caráter e tornava-se bulhento e arrebatado: isso não era sempre, era às vezes, conforme a quantidade do traiçoeiro Borgonha bebido.

O pior era que o Saisset quando se exagerava no culto de vinho nem sempre dormia e quando não dormia, ficava irascível, desatinado, e inconseqüente.

Foi um dia à noitinha, isto é, depois do jantar, o Sais set embirrou com a esposa, que estava diante de grande espelho a enfeitar-se com um lindo toucado que usava de predileção, e ele em demasias de Borgonha excedeu-se tanto, que encolerizado quebrou o espelho, e fez em casa tão escandaloso ruído que todos os vizinhos o julgaram perdido por ataque de loucura.

Poucos dias depois, muito vexado e constrangido, o Saisset teve de deixar a cidade do Rio de Janeiro, levando consigo a bela esposa, e saíram ambos barra afora para a Europa; ele a maldizer do seu vinho. brigão, e Mme Saisset a chorar o seu espelho quebrado.

Ao Saisset sucedeu na casa e nos fulgores das modas Mr. Wallerstein.

Que nome! Que prestígio!

O Saisset fora o Clóvis!

O Wallerstein foi o Carlos Magno da Rua do Ouvidor.

Ó loja do Wallerstein!... A lembrança dos seus primores faz ainda palpitar corações, não de velhas, porque não há senhoras que o sejam, mas de senhoras que foram meninas e jovens durante o florescimento daquele gênio do bom-gosto, florescimento que perdurou desde o fim do Primeiro Reinado até além da coroação do Imperador o Sr. D. Pedro II.

Havia na Rua do Ouvidor, e em outras como a da Quitanda, lojas que vendiam sedas, leques, xales, etc., a preço de vinte, trinta, cinqüenta por cento menos do que se compravam iguais e algumas vezes inferiores na loja do Wallerstein; mas que importava isso?... não eram do Wallerstein!...

Se algum pai ou marido levava à menina ou à esposa com ar de. triunfo o rico e lindo corte de vestido com ânsia esperado da pasmosa loja, a menina ou esposa exultava, achando-o admirável e eclipsador.

- Sim!... mas custou duzentos mil réis!...

(Era naquele tempo...)

- Pois não está caro... e disto só tem o Wallerstein.

Ainda bem!... mas esse corte de seda eclipsador saiu da loja do João Fernandes & C. por 110$000.

Ah, boca que tal disseste!...

A menina ou a esposa dissimulava durante alguns minutos, depois examinava de novo a seda, e empurrando-a para o lado, fazia um momo desprezador, e murmurava desconsolada:

- Reparando melhor... nem por isso... parece antiga... é algum alcaide... vê-se logo que não é do Wallerstein!

Os pais e maridos mais ladinos não faziam confissão do estratagema, e as filhas e esposas às vezes ostentavam seus ricos vestidos de Wallerstein comprados na Rua da Quitanda, ou em lojas modestas.

Para brilhar a alegria na família bastavam duas inocentes mentiras: primeira, dizer que o corte de seda era procedente da casa de Wallerstein; segunda, ralhar exagerando a despesa feita: asseverando que custara duzentos mil réis, o que se comprara por oitenta ou cem.

Mas não havia pai nem marido capazes de iludir as filhas e as esposas da alta sociedade ou do proclamado bom-tom; essas eram intransigentes e escrupulosas freguesas do Wallerstein.

Era tal o furor de preferência dada à casa do Wallerstein, que em mais de um caso chegou a tocar à extravagância e ao ridículo.

Dou exemplo.

No ano de... (não quero expor-me à indiscrição marcando o ano), um deputado novo de alguma das províncias do Norte foi com a sua jovem e digna esposa à loja do Wallerstein, e à escolha deste, e sem questão de preço, comprou-lhe o mais distinto corte de seda para vestido, com que a senhora deveria aparecer em próximo baile diplomático, e encarregou ao Wallerstein da escolha da melhor modista, e de todos os ajustes com esta, e foi nisso prontamente servido.

Tudo correu por conta e responsabilidade do famoso lojista, ditador da moda.

Não sei qual foi a modista preferida, mas ou por tardo reconhecimento de deficiência do corte de seda, e falta de fazenda igual, ou por imprudentes estragos de tesoura, a tal modista para completar um dos panos da saia do vestido dissimulou na barra, deste, e do lado esquerdo, uma emenda em forma de triângulo finíssima e quase imperceptivelmente cosida, e ainda mais oculta por baixo de rendas e flores.

Nem Cristóvão Colombo que descobriu a América nos desertos do oceano seria capaz de descobrir aquela emenda coberta por flores e rendas na barra de um vestido.

(continua...)

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