Por Lima Barreto (1922)
De fato, era bonito, bonitinho mesmo, desbotado de cútis, e parecia até fabricado em Saxe ou em Sèvres. Tinha uns lindos dentes, um belo cabelo cuidado, não era alto, mas era bem apessoado. Merecia muito bem um bom casamento rico; contudo, o visconde quis melhor examiná-lo e perguntou:
— O senhor sabe sorrir bem?
O candidato não se atrapalhou e acudiu com firmeza:
— Sei, Excelência.
— Vamos ver.
E o lindo moço repuxou os lábios, entortou o pescoço de um lado, gracilmente, ajeitou os olhos e todo ele foi uma lindeza de impressionar o pacato secretário que, ao lado, assistia ao exame, completamente embrulhado em um fraque venerável e cheio de embevecimento.
Contente com isto, o ministro tratou de ir mais longe na experiência das excepcionais qualidades que o candidato revelava e convidou-o com voz paternal:
— Aperte a mão, ali, do Major Marmeleiro (o secretário). Faça o favor.
O examinando não se fez de rogado. Juntou os pés, curvou docemente o busto, levantou o braço e, sempre sorrindo, cumprimentou:
— Senhor Major Marmeleiro...
Pancome não cabia em si de contentamento com a sideral aquisição que estava ali. Que elegância! Que lindeza! Dessa feita é que ele ia fazer uma nomeação justa e sábia. Arre! Não era sem tempo...
Era preciso, porém, ver se o donzel conhecia algumas outras cousas de sociedade.
— O senhor sabe dançar? perguntou.
— Sei, Excelentíssimo.
— Vamos ver.
— Mas só e sem música, senhor visconde?!
Ordenou o ministro que o contínuo fosse chamar um certo empregado, exímio em dança; e, enquanto ele ia buscar o funcionário, disse Pancome a Marmeleiro:
— Você sabe assoviar, major?
O secretário estava sempre disposto a responder afirmativamente ao visconde e não se deteve um minuto:
— Sei, senhor visconde.
— Bem, disse Pancome, assovie aí uma valsa.
A "dama" já tinha chegado e Marmeleiro agora hesitava.
— Não sabe? indagou o ministro severamente.
— Só sei as "Laranjeiras".
— De quem é isso? perguntou Pancome.
— É do Hamélio.
— Não é lá muito elegante, considerou o visconde, mas... serve, serve!
Marmeleiro começou a assoviar com todo o recato que o lugar exigia — fiu, fiu, fiu... — e os dois dançaram com todas as cerimônias e ademanes dignos de gabinete tão diplomático e do respeito que merecia a presença daquele alto herói ministerial. Pancome verificou com um júbilo paternal que o tal Sune continuava a ser uma maravilha! Que soberbo amanuense ia ele ser! Bendita Bruzundanga que produzia daquilo!
Acabaram de valsar ao som do melodioso assovio de Marmeleiro, e o visconde falou, então, com mansuetude, ao candidato:
— Descanse um pouco, meu filho; e, depois, escreva-me uma carta ao ministro de Interior sobre a necessidade da Bruzundanga se fazer representar no Congresso de Encaixotamento de Pianos em Seul.
O lindo Wolfe esteve a pensar um pouco e retrucou titubeando:
— Vossa Excelência compreende que... Eu! De uma hora para outra... Compreende Vossa Excelência que não tenho prática... Com o tempo... Mais tarde...
Era só redigir cartas o que ele não sabia; mas, sendo elegante, bonitinho, bom dançador, tinha todas as boas qualidades para um aperfeiçoado amanuense do extraordinário Pancome.
Tendo em vista as necessidades da representação da Bruzundanga, o visconde nomeou-o logo, sem detença alguma. Foi uma acertada nomeação, e sábia, que veio provar o quanto são tolos os regulamentos e as leis que exigem dos amanuense a vetusta ciência de saber redigir cartas.
Se não fosse um herói, uma notabilidade universal o Ministro, talvez o galante Sune não tivesse sido aproveitado e os estrangeiros não teriam uma favorável idéia da boniteza dos homens da Bruzundanga; mas era, felizmente, e pôde, portanto, pôr de parte as tolas exigências legais, e o país, com tal aquisição para o seu funcionalismo, adiantou um século.
É verdade que o Marechal Soult, duque da Dalmácia, e Guizot que em celebridade e notoriedade universal talvez não invejassem as de Pancome, foram ministros de França, e, ao que consta, nunca desrespeitaram ostensivamente as leis do seu tempo. Isto aconteceu em França; mas na Bruzundanga as cousas se passam de outro modo e aquele país só tem ganho com tal proceder, como acabamos de ver.
Feito amanuense, aprendeu logo a copiar minutas e, em menos de seis anos, Sune, o tal da carta, acabou eleito, por unanimidade, membro da Academia de Letras da Bruzundanga.
Ficou sendo o que aqui se chama — um "expoente".
CAPÍTULO XXII
NOTAS SOLTAS
Um anúncio de livraria, na Bruzundanga:
"Acaba de aparecer o extraordinário romance — Meu caro senhor..., de Dona Adhel Karatá (pseudônimo de Hiralhema Sokothara Lomes, filha do grande poeta e escritor Sokothara Lomes, cujas assombrosas glórias literárias ela continua com muito brilho, e irmã do fino estilista e elegante parlamentar Carol Sokothara Lomes). À venda, etc., etc."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16833 . Acesso em: 8 maio 2026.