Por Adolfo Caminha (1896)
— Reconheço e sou-lhe agradecido... mas não é razão... Amigos amigos, negócios à parte.
Falavam baixinho para que ninguém os ouvisse. Evaristo acabava repetindo que ia procurar casa antes de qualquer rompimento — casa de pobre, casa de cinqüenta mil-réis, na Cidade Nova, no Castelo, no Morro do Pinto, no inferno!
Adelaide, sempre que o marido falava em procurar casa, estremecia. Por quê? Não sabia... não sabia por quê. Era-lhe talvez mais agradável voltar à província, deixar o Rio de Janeiro, a Corte, as aparências de uma vida fidalga, e recolher a um canto esquecido e longínquo, onde ninguém a visse... O mundo é muito grande.
— Eu o que quero é estar à vontade com as minhas idéias! — rematava o bacharel.
Nada o importunava tanto, agora, como a presença de um aristocrata. A mulher do desembargador Lousada com a sua luneta de tartaruga e com os seus modos afetados de dama do Paço; o visconde de Santa Quitéria, muito enluvado, muito correto; barões e comendadores, que freqüentavam a casa do secretário todos o aborreciam. — "Canalha de graúdos! Corja de mandriões! Visconde... que quer dizer um visconde? Que quer dizer um barão? Que quer dizer um comendador?"
Adelaide pedia, cansava de pedir, suplicava de mãos postas, que falasse baixo, por amor de Deus! — Ele moderava o seu ódio aos grandes e punha-se a fumar ou a ler.
Ambos viviam muito preocupados: o bacharel com a política, Adelaide com a insistência do secretário, sem se esquecerem um do outro, amando-se como noivos em lua-de-mel. Ela, sobretudo, por uma extraordinária delicadeza do sentimento, por um nervosismo doentio, não lograva arredar da imaginação os olhos de Furtado, a boca sensual de Furtado, o rosto inteiro daquele homem que era como uma tentação do inferno a persegui-la, a persegui-la... Evitava-o, como se evita um perigo, como se evita um abismo, uma desgraça... Mas quase não tinha força para reagir, para dominar a impressão que lhe enchia o espírito, escravizando-a, subjugando-a imperiosamente. Via-o a todo o instante, mesmo quando ele não estava em casa - via-o risonho, afagando o bigode, olhando-a com a meiguice de um namorado, com aqueles olhos muito sedutores, de uma doçura infinita - e perdia de vista o marido, como se já pertencesse ao outro, ao estranho.
Uma noite em que o bacharel se demorava até quase uma hora da madrugada no clube, ela só faltou perder o juízo. Bateu dez horas, onze horas, e o Evaristo "na rua!" Adelaide começou a ficar nervosa, a concentrar o espírito numa idéia lúgubre... — "Se lhe houvessem assassinado o marido!... Se algum inimigo... algum ladrão o tivesse apunhalado às escuras num beco, ao sair do clube?... Que horrível coisa a viuvez de uma pobre mulher como ela, órfã e desconhecida!
E seus olhos buscavam Furtado instintivamente, como os olhos de um náufrago a sombra longínqua duma vela. À proporção que as horas passavam, confrangia-se-lhe o coração numa angustiosa crise de desânimo.
A luz da sala de jantar entibiava-se, parecia ir morrendo aos poucos, uma consumpção lenta.
D. Branca explicou: - "era água no gás..."
Deu meia-noite. Adelaide tirou do bolso do vestido o lenço, baixou a cabeça e explodiu num choro nervoso.
— Pelo amor de Deus, D. Adelaide! Chorando à toa! — disse o secretário. — À toa, à toa — repetiu D. Branca.
E tratavam ambos de distrair a esposa do bacharel, consolando-a, rindo, gracejando à custa de Evaristo:
— O homem está metido com os republicanos, minha senhora! — dizia Furtado. — Isso de república e como o espiritismo: põe a gente doida!
— E, depois, ele já não é criança, Adelaide! — juntava D. Branca. — Você logo não está vendo que a sessão de hoje foi maior que a dos outros dias? Mas Adelaide não tirava os olhos do relógio, o lenço na mão, todo úmido, um ruborzinho na ponta do nariz.
— Ah! meu Deus, permiti que aquele homem já volte! — Há de voltar, há de voltar — por que não?
E o secretário rondava a mesa, de um lado para o outro, indo e vindo, com o seu ar de fidalgo, calça de casimira e paletó branco.
Foi então que, pela primeira vez, Adelaide viu quanto estimava o marido, quanto o idolatrava. Aquela demora doía-lhe como se o já estivesse contemplando morto no meio da casa, dentro de um caixão negro com galões de ouro... Mais um quarto de hora: novo acesso de choro.
— Menina, tenha paciência que o homem vem! Adelaide! - ralhou D. Branca.
Com efeito, a campainha retiniu no corredor e uma alegria súbita iluminou o rosto de Adelaide que ergueu-se para ver chegar o bacharel. Evaristo vinha carrancudo, muitíssimo sério.
— Boa noite! cumprimentou, respeitoso.
— Oh, Evaristo! — fez a esposa abraçando-o.
— Oh, o quê?
— Que horas!
— Então, faz-se ou não se faz a república? — interrompeu o secretário.
— Não posso responder agora; estou com muito sono... — disse, enfadado, o bacharel.
— Acredito, acredito; vamos tratar de dormir, que já passa de meia-noite.
Trocaram-se ainda algumas palavras frias, sem interesse, e os dois casais separaram-se.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.