Por Adolfo Caminha (1895)
— “Até que enfim! Ora até que enfim!”
A pequena embarcação vinha-se chegando para a ilha sem toldo, remada por um galego de suíças, meio velho. Trazia à popa, no recosto do paineiro, o dístico — Luis de Camões, por cima de uma figura à óleo, que tanto podia ser a do grande épico como a de qualquer outra pessoa barbada, em cuja fronte se houvesse desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta tinha o olho esquerdo vazado, o que, afinal de contas, não interessava ao negro.
— Quer me levar ao cais? perguntou Bom-Crioulo ao português, — É já! disse o homem atracando. O Luis de Camões não dorme.
— Vamos.
— Pode embarcar. — Upa!
E, com um salto, Bom-Crioulo embarcou. Estava, enfim, livre de perigo; — “... que os pariu!”
Daí a instante perdia-se no labirinto da cidade, marchando no seu passo largo, muito desenvolto, quebrando ruas, dobrando esquinas, “bordejando”...
Estava um dia lindo, lindo! Um dia de galas no azul e nas montanha, um dia e liberdade!
CAPÍTULO XII
Quase nenhum movimento ainda na Rua da Misericórdia; sujeitos mal vestidos, operários e ganhadores, desciam com ar miserável e bisonho de ovelhas mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro, numa lentidão arrastada, numa quase indolência de eunucos. A vaca do leite, com as grandes tetas pesadas, um chocalho ao pescoço, ia no seu giro quotidiano, muito dócil, o ventre bojudo, uma baba a escorrer-lhe do focinho em fios d’espuma. A carrocinha do lixo, pintada de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acolá.
Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteirão; somente o ruído dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidraças obliquamente acordando os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista com fulgurações quentes de revérbero; e já se começava a sentir um calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princípio de mormaço.
Abriam-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, estabelecimentos de madeira, carvoarias, quitandas.
O movimento, porém, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes numa confusão bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço.
A vida recomeçava.
Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora, o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...
Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como cousa que lhe entrasse n’alma, a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha aprendido a amar, a “querer bem”...
E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio da suas reminiscências, levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: — “Aquele sobradinho, aquele sobradinho!...”
Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e lá foram juntinhos para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o português, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... — tudo estava gravado em sua imaginação, tudo!
Enchiam-se-lhe os olhos d’água, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar...
Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. “—Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo d’água: vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!”
Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia como um epiléptico: vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se, enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das cousas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: — “Era ali mesmo, tal e qual!”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.