Por Inglês de Sousa (1891)
Fidêncio desforrara-se então da privação de dias, repisando as declarações contra os padres. Todas as acusações formuladas pela imprensa livre-pensadora, pelos panfletos baratos, todas as banalidades cediças reeditadas de fresco pelos inimigos do clericalismo na luta travada a propósito do interdito das irmandades, tomaram na boca do professor - tinha presunção disso - a forma original dos seus calem-burgos brejeiros e das suas pilhérias desaforadas. O Pedrinho Sousa e o Manduquinha ajudavam-no, esclarecendo com o comentário das gargalhadas o sentido equívoco das expressões, revestidas de um respeito afetado pela pessoa do capitão Fonseca. O coletor já começava a ceder, meio vencido, mas entrincheirando-se na Divindade de Cristo e na Virgindade de Maria Santíssima. Desses dois dogmas é que não admitia que se duvidasse. O jornalista desfiara um longo rosário de anedotas picantes, reminiscências da Central, para provar que os padres eram os verdadeiros inimigos da religião católica e da moral pública. E, despertando-lhe aquelas reminiscências a indignação adormecida, bradara, batendo uma punhada sobre o balcão:
— Corja de jesuítas! Do que precisam é dum marquês de Pombal!
Nessa ocasião o vulto de padre Antônio de Morais, esbatido pela dúbia claridade do último crepúsculo da tarde, desenhou-se no trecho de rua devassado pelas portas da loja, passando vagarosamente, sereno e triste, na batina negra.
Houve um momento de curiosidade. O Manuelzinho sorriu, olhando para o professor.
Fidêncio agarrara a ocasião, pelos cabelos:
— Olhe, olhe, dissera, apontando ao coletor o padre, veja lá se aquele é capaz de deixar a pelintragem, com que pretende enganar a todos, para meter-se no mato a converter tapuios bravos; se é homem para deixar a sua casinha cômoda da Rua da Matriz, o seu vinhito do Porto ao amanhecer, o gordo tambaqui macio, o descanso da vidinha de padre vigário para internar-se pelos sertões em busca de selvagens, arriscando a pele. - Nada, que isto de ser padre é meio de vida e não meio de morte, terminara vindo à porta contemplar o vigário que se demorara a conversar com um homem que encontrara.
— Sim, observou o coletor, bem sei que isto de padres, hoje em dia, é uma carreira, como a de advogado, por exemplo, cada um procura a maior comodidade possível. Não contesto, acentuou olhando para o Pedrinho Sousa que estava a rir; não contesto que a Igreja precise de reformas sérias; entretanto, há padres que não são de todo maus. Padre Antônio não bebe, não joga, não dá escândalos com mulheres, diz a sua missinha todos os dias, prega de vez em quando, é um pouco exigente talvez, pensa que o mundo está para acabar. É ainda muito moço - não digo que se faça de padre italiano para catequizar selvagens - mas pode vir a ser um padre distinto. Quanto a meter-se em catequeses...
— Pois sim, exclamara Fidêncio, subitamente iluminado por uma idéia ousada, olhe, aí o tem, senhor capitão, chame-o e pergunte-lho. — Chamá-lo não tem propósito, respondeu o coletor.
E, assustado da lembrança, correu os olhos pelos circunstantes, perguntando:
— Que diria ele do meu procedimento irregular?
O Manduquinha Barata e o Pedrinho Sousa apoiaram o pedido do professor. O coletor resistia. Então Fidêncio manejara uma arma hábil:
— Pois o senhor capitão não tem familiaridade com o padre?! o que todos dizem. Ele é obrigado a V. S.a por muitos obséquios, e não creio que a pessoa de sua consideração ele estranhe procedimento tão simples.
Francisco Fidêncio e os dois rapazes teimaram, provocando a vaidade do capitão Fonseca. Estavam vendo que não era o que se dizia! Ou o capitão era muito acanhado ou o vigário não o tinha em grande consideração. O coletor, para provar a influência de que gozava, não hesitara mais em sacrificar o padre.
Levantou-se, chegou à porta da rua. O vigário estava na ocasião de face para ele. No seu rosto calmo e sereno uma bondade reluzia. Falava afavelmente, em voz baixa, com o homem, um tapuio morador da beira do lago:
— Padre-mestre, faz favor? disse o coletor em voz alta.
— Estava aqui sustentando este senhor, continuou na sua voz autoritária e grave, quando o padre, largando o tapuio, chegou à porta da loja; estava aqui sustentando este senhor que no Brasil não há mais padres que façam catequese de índios, porque na Mundurucânia os gentios queimaram a povoação de S. Tomé e assassinaram os habitantes. Eu, pelo contrário, sustentava que ainda há missionários, posto que isso seja mais próprio de italianos. Que diz V. Rev.ma?
Padre Antônio olhou demoradamente para Fidêncio, para os dois rapazes, para a figura pascácia e grave do capitão Manuel Mendes da Fonseca. No olhar brilhou-lhe um relâmpago, com uma expressão de desafio e luta que Fidêncio estranhou, surpreso. Depois o padre sorrira e dissera:
— Este senhor tem razão; há muitos chamados e poucos escolhidos.
Saudara cortesmente e acrescentara:
— Queiram desculpar, são horas da ladainha.
Francisco Fidêncio Nunes voltara para casa, sozinho, muito pensativo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.