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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Belota, com maneiras manhosas de consumado velhaco, tinha enorme predomínio no camarada, que tanto era agressivo e rixoso, quanto cobarde, quando entestava um adversário considerável. Isto sucedera no caso da Quinotinha, a que o Alexandre defendera, com uma coragem evidente, bonita...

Depois de muitos conselhos e exortações, Belota pretextou necessidade de ir ao corpo da guarda, prometendo voltar sem demora.

Vendo que Crapiúna se dirigia para o quintal, Teresinha desceu, ligeiro, do posto de observação, e correu. Mal teve tempo de chegar à porta, atrás da qual se escondeu, trêmula de terror.

O soldado, destro como um gato, saltou por cima do muro, e dirigindo-se para o fundo, suspendeu um velho caixão, atulhado de coisas imprestáveis, tirou de sob o qual uma bolsa de coiro de onça, cheia de dinheiro.

Enquanto o soldado contava, umedecendo os dedos na língua, as notas miúdas, dilaceradas e sórdidas, Teresinha, no esconderijo, procurava, em vão, conter as pernas vacilantes, quase a vergarem. Pelos seus olhos espavoridos, passou a visão do responsório, em casa de Rosa Veado. Uma das sombras, aquela que, com esgares de louco, a arrebatava em volteios macabros pelo ar, em nuvens de fumaça sufocante, estava ali corporizada, bem nítida, contando o dinheiro furtada. O glorioso Santo Antônio operara o milagre. Por precaução criminosa, talvez para arriscá-la, Crapiúna escondera o furto, denunciá-la-ia mais tarde, e ela seria, como cúmplice de Alexandre, vítima de uma prova esmagadora.

Entre o terror de se achar a sós com o soldado em tão estreito espaço, ser por ele pressentida e descoberta, testemunhando o terrível segredo, e o prazer de haver colhido certeza da autoria do crime, Teresinha vacilava na resolução por tomar, sem se embaraçar nas malhas da rede, em que pretendia apanhar o criminoso. Teve ímpetos de gritar, de surpreendê-lo em flagrante, e arrastá-lo à presença do delegado. Isso, porém, seria perder-se, sacrificar-se, inutilmente, porque Crapiúna seria capaz de eliminá-la, estrangulá-la, sem piedade. Ela não poderia lutar, frágil como era e aberta dos peitos, contra um homem vigoroso e armado de uma faca hedionda, cujo cabo de chifre, incrustado de arabescos de oiro, surgia-lhe da ilharga. Ah! se tivesse os músculos de Luzia!

As pernas lhe tremiam, cada vez mais bambas; os dentes se chocavam com estalidos secos, toda ela tiritava inundada de suor gelado, que lhe empapava os cabelos na fronte, e lhe corria pelo dorso, como vermes pegajosos. A cabeça andava-lhe à roda; e, na visão perturbada, o soldado se afigurava desdobrado em outros iguais e pequeninos, que avançavam para ela com trejeitos de palhaços. A mísera debatia-se para fugir, implorar socorro, como na angústia de um pesadelo.

Os rápidos instantes que se ali demorara o soldado lhe pareceram infindáveis; e quando recobrou a posse de si mesma, saindo do esconderijo, pé ante pé, com meticulosas precauções, lívida, espavorida, viu que o quintal estava deserto. Nada denunciava a presença dele: o caixão estava no mesmo lugar, onde permanecia, havia muito tempo; não viu pegadas no chão, nem o mais leve vestígio. E a bolsa?... Ela não ousava verificar se fora reposta onde a vira.

— Seria realidade ou sonho? – inquiria ela, procurando despertar a memória, fixar idéias e recompor o fato, em todas as suas minúcias – Teria, na verdade, visto Crapiúna transpor o muro, suspender o caixão e contar o dinheiro?...

Seria a revelação efeito da intervenção do Santo?...

Nessa dolorosa incerteza, esgotadas as forças, com os quadris doloridos, como se os houvesse traspassado a faca do soldado, marchou trôpega, para o interior do aposento, então quase escuro, e, subjugada de inelutável torpor, derreouse na rede, armada a um canto.

Era quase noite. Não se ouvia mais o grazinar das três mulheres, que haviam partido para a delícia de um gozo, fariscando, numa insaciedade, a fortuna dos jogadores.

CAPÍTULO XVIII

O relógio da Matriz dava oito horas, quando Teresinha despertou sobressaltada, tomando pela claridade da aurora, o luar que se coava pelas frestas do telhado. Seu primeiro movimento foi para erguer-se, ir ter com Luzia, dar-lhe, como costumava, notícias de Alexandre, e contar-lhe a excelente novidade. Mas, o corpo enlanguescido de tão violentas comoções, do torpor do sono, recusou obedecer. Ela permaneceu encastoada na rede, encadeando idéias dispersas, e fixando bem, na memória, o episódio que duvidava ainda fosse sonho, ou realidade. Por fim, assaltou-a o medo de estar só na penumbra do quarto, povoado de fantasmas, rumores suspeitos que se lhe figuravam passos de homem aproximandose, hálitos ansiosos, como a sua própria respiração ofegante.

Com esforço voluntarioso ergueu-se, espreguiçou-se para distender as articulações entorpecidas, e abriu, de manso, a porta.

(continua...)

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