Por Aluísio Azevedo (1881)
E tinha já defronte dos seus olhos os seus queridos filhinhos, nus, muito tenros e roliços, com a moleira descascando, os pezinhos vermelhos, narizinhos quase imperceptíveis, pequeninas bocas desdentadas, a lhe chuparem os peitos, com a engraçada sofreguidão irracional das criancinhas. E, a pensar neles, enlanguescia toda, -numa postura indolente e comovida — os braços estendidos sobre as coxas, a cabeça mole, pendida para o seio, o olhar quebrado, fito, com
preguiça de mover-se, o livro descansado nos joelhos, entre os dedos insensibilizados. E cismava: “Sim, precisava casar, fazer família, ter um marido, um homem só dela, que a amasse vigorosamente!” E via-se dona de casa, com o molho das chaves na cintura — a ralhar, a zelar pelos interesses do casal, cheia de obrigações, a evitar o que contrariasse o esposo, a dar as suas ordens para que ele encontrasse o jantar pronto. E queria fazer-lhe todas as vontades todos os caprichos - tornar-se passiva servi-lo como uma escrava amorosa dócil fraca que confessa sua fraqueza, seus medos, sua covardia, satisfeita de achar-se inferior ao seu homem, feliz por não poder dispensá-lo. E cismava, muito, muito, no marido, e esse mando aparecia-lhe na imaginação sob a esbelta figura de Raimundo.
Nisto, abriu-se por detrás dela o cortinado da cama, com um leve rumor de rendas engomadas.
Ana Rosa voltou-se em sobressalto e deu, cara a cara com Raimundo, que a fitava repreensivo, soltou um grito e tentou fugir. O livro caiu ao chão escancarando uma página onde se via desenhado o interior de um ventre, cheio com o seu grande novelo de tripas amarelas e cor-de-rosa.
O rapaz não lhe tempo para sair, colocando-se entre a cama e a parede.
— Tenha a bondade de esperar... disse, muito sério.
— Deixe-me por amor de Deus! suplicou ela, torcendo a cabeça para evitar os olhos de Raimundo.
— Não senhora, há de ouvir-me primeiro, respondeu este com delicada autoridade. E acrescentou, depois de uma pausa, pondo nas palavras certo cunho de superioridade paternal: Custa-me, mas é necessário repreendê-la... tanto mais, por me achar na casa de seu pai, que é também sua!... A senhora, porém, cometeu uma falta, e eu cometeria outra maior se me calasse.
— Deixe-me!
— A senhora sairá deste quarto prometendo que não tomara a fazer o que tem feito!... Se descobrissem as suas visitas clandestinas que não julgariam de mim?... de mim, e da sua pessoa, o que e muito mais grave!... Que não diriam?... E, vamos lá! - com direito!... Pois a reputação de uma senhora é coisa que se exponha deste modo?... Isto tem lugar?... Mas, quando assim fosse, quando, por uma aberração imperdoável, minha prima assim entendesse, poderia barateá-la, sem enxovalhar sua família? Fique sabendo minha senhora, que a obrigação que cada qual tem de zelar pelo seu nome, não se baseia só no amor próprio, mas no respeito que devemos aos solidários do nosso credito! Uma senhora nada tem que fazer no quarto de um rapaz!... E muito feio! Minha prima comete com isso uma ingratidão a quem deve tudo - a seu pai!
O pranto nervoso da menina, sustido ate ali com dificuldade rebentou-lhe da garganta e dos olhos, como um regato que quebrasse as represas; as lágrimas corriam-lhe quentes pela face e pingavam-lhe grossas bagas nas carnes brancas e palpitantes do seio.
Raimundo comoveu-se, mas procurou esconder a sua comoção. E desviando o corpo, para lhe dar passagem, acrescentou com a voz pouco alterada.
— Peço-lhe que se retire e não volte em circunstâncias idênticas...
Queria acusá-la ainda, repreendê-la... mais, porem as sobrancelhas desfranziam-se-lhe defronte daquele vestidinho honesto de chita, daquelas singelas tranças castanhas, daquelas lágrimas inocentes.
Ana Rosa ouviu-o de cabeça baixa, sem uma palavra, com o rosto escondido no lenço. Quando Raimundo acabou de falar, ela deva grandes soluços, muito suspirados, como de uma criança inconsolável.
— Então que tolice é esta?... Agora está soluçando deste modo!... Vamos, não seja criança!..
Ana Rosa chorava mais.
— Olhe que, desse modo, podem ouvi-la da varanda!...
E Raimundo atrapalhava-se de comoção e de medo; já não acertava com o que queria dizer; faltavam-lhe os termos; sentia-se estúpido. Começou a temer a situação.
— Vamos, minha amiga... tartamudeou inquieto, se a ofendi, desculpe, perdoe-me, era para seu interesse...
E chegou-se para ela, ameigou-a; estava arrependido de ter sido tão ríspido. “Fora grosseiro! No fim de contas, bem sabia que a pobre moça não era responsável por aquilo!...” Sentia remorsos. E tentou destruir o mau efeito das suas primeiras palavras:
— Então, vamos... Eu sou seu amigo, diga-me por que chora...
Ana Rosa não respondia, soluçava sempre. Raimundo não pode conter um movimento de impaciência, e coçou a cabeça.
— Ai, que vai mal a história!
Estava já sinceramente arrependido de ter vindo surpreendê-la. “Que lhe valesse a paciência!” Todo o seu receio era que a ouvissem da varanda. “Descobriam tudo!... Com certeza que descobriam!”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.