Por Aluísio Azevedo (1884)
— Perdão! Replicou o estudante. — Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da província ou da Corte, apresenta sempre certa dose de ambições. Com a diferença, porém, de que a provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro é o seu ideal, é o seu sonho dourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra, visto que o supradito Rio de Janeiro para ela nada mais é que o comum, estende naturalmente a sua ambição — e quer Paris. O Passeio Público já não a satisfaz, é preciso dar-lhe Bois de Boulogne; já não lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer tudo isso e mais um título, de baronesa pelo menos!
E, encantado com a clareza do seu argumento, continuou a discutir, chegando à conclusão de que seria loucura desejar uma mulher isenta de ambições e caprichos, e que ele já se daria por muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal não fosse além do Rio de Janeiro.
Amélia era precisamente dessa opinião, mas entendia que, mesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas e aliás muito modestas.
Amâncio declarou que não argumentava com exceções. — Sabia perfeitamente que nem todas as fluminenses calçavam pela mesma forma, e não tinha a pretensão de dizer “desta água não beberei, deste pão não comerei!” apenas não admitia aquela razão, que apresentava Mme. Brizard, para provar que as provincianas eram mais dispendiosas do que as filhas da Corte. Isso não! que o desculpassem, mas não podia admitir!
Sempre queria vê-lo casado com uma provinciana!... observou a francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. — Então sim! Aposto que não teria a mesma opinião!
Amâncio não respondeu logo, porque estava muito ocupado a apanhar do chão uma grande pilha de camisas engomadas, que Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu também a ajudá-los, e, na precipitação com que todos três, agachados um defronte dos outros, queriam ao mesmo tempo recolher a roupa espalhada no soalho, as mãos do estudante encontraram-se com umas mãozinhas finas que não eram certamente as de Mme. Brizard.
Mas todas as vezes que ele tentou retê-las entre as suas, as tais mãozinhas fugiam tão ligeiras, como se lhes houvessem chegado uma brasa
CAPÍTULO IX
O baile em casa do Melo esteve bom. Este, muito magro, de suíças negras, olhos fundos e movimentos rápidos, não descansava um instante; tão depressa o viam conduzindo senhoras pela escada, como a receber apresentações na sala de jantar, como a formar quadrilhas; voltando-se para todos os lados e atendendo a todas as pessoas.
O Melo tinha boas relações e alguns bens adquiridos no comércio; nunca se envolveu diretamente com a política, mas prezava o monarca e esperava , com resignação, um hábito que há dez anos lhe haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que já não era criança, ainda metia muita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram com ela, citavam-na como um tipo de formosura.
Amâncio foi recebido com especial agrado, graças a Luís Campos que era íntimo do dono da casa.
A circunstância de que ali se achava só, no meio de tanta gente estranha, como que apertava o círculo de suas relações com a família do correspondente. Fazia-se muito deles, muito aparentado; não dispunha de mais ninguém para desabafar as suas impressões e para conversar um pouco mais à vontade.
Assim, quando saltamos num porto pela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente nossas relações com os companheiros de bordo, ainda mesmo que os conheçamos de poucos dias.
Até Carlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que Amâncio se revelou insigne dançador de valsa. Ela era louca pela dança. Maria Hortênsia notara igualmente que o provinciano tinha um certo talento coreográfico muito peculiar, e não ficou isolada nesse juízo, porque várias senhoras se declararam a mesma opinião.
Não tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse pelas outras salas. E em breve estavam todas as damas de acordo em que Amâncio era o melhor par daquela noite.
Com efeito, se ele em outra qualquer coisas não conseguiu a perfeição , na dança ao menos nada se lhe tinha a desejar; dançava admiravelmente, por vocação, por índole, por um jeito especial do corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos braços, à cabeça e às pernas. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo próprio, original.
Quando, sacudido pela música, os olhos meio cerrados, a boca meio aberta, arremessava-se com a dama no turbilhão da sala, tinha alguma coisa de pássaro que desprende o vôo. Ficava até mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente sobre a testa; o cansaço dava ao moreno de suas faces uma palidez misteriosa e doce. E, com o braço direito engranzado à cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a mão que a dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se todo com delícia, a fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido como se fora arrebatado por entre nuvens de arminho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.