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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

Fazia o mestre em voz alta o pelo-sinal, pausada e vagarosamente, no que o acompanhavam em coro todos os discípulos. Quanto a fazerem os sinais era ele quase sempre logrado, como facilmente se concebe, porém pelo que toca à repetição das palavras, tão prático estava que, por maior que fosse o número dos discípulos, percebia no meio do coro que havia faltado esta ou aquela voz, quando alguém se atrevia a deixar-se ficar calado. Suspendia-se então imediatamente o trabalho, e o culpado era obsequiado com uma remessa de bolos, que de modo nenhum desmentiam a reputação de que goza a pancada de cego. Feito isto, recomeçava o trabalho, voltando-se sempre ao princípio de cada vez que havia um erro ou falta. Acabado o pelo-sinal, que com as diversas interrupções que ordinariamente tinha gastava boa meia hora, repetia o mestre sozinho sempre e em voz alta e compassada a oração que lhe aprazia; repetiam depois o mesmo os discípulos do primeiro ao último, de um modo que nem era falado nem cantado; já se sabe, interrompidos a cada erro pela competente remessa de bolos. Depois de uma oração seguia-se outra, e assim por diante, até terminar a lição pela ladainha cantada.

Ao sair recebia o mestre uma pequena espórtula do dono da casa.

D. Maria, tendo em sua casa um número não pequeno de crias, não se dispensava de ter, como todos que estavam em suas circunstâncias, o seu mestre-de-reza. Era este um cego muito afamado pelo seu excessivo rigor para com os discípulos, e por conseqüência um dos mais procurados; nesse tempo exigia-se antes de tudo essa qualidade. Tinha também outro mérito: corria a seu respeito a fama de bom arranjador de casamentos.

Eis aí o procurador de José Manuel.

José Manuel já antes o tinha posto de mão, e agora que se viu em perigo recorreu a ele; expôs-lhe o caso, comunicou-lhe suas intenções, e pediu-lhe a sua cooperação. Fez-lhe sentir sobretudo que havia um rival a combater, e muito temível, pois que não era conhecido. O velho começou então a tomar as mais minuciosas informações, e depois de calcular por algum tempo disse:

— Já sei com quem me tenho que haver...

— Então com quem é?... acudiu José Manuel apressado.

— Vá descansado, não se importe com o resto.

— Mas, homem, olhe que é preciso muito cuidado; porque, quem quer que é, é fino como os trezentos...

— Ora qual... histórias... desses arranjos entendo eu dormindo, e vejo nisso, sendo cego, melhor do que muitos com seus olhos perfeitos.

— É uma coisa que me põe à roda o miolo não poder descobrir quem se intromete nos meus negócios... olhe que a tal entrega do furto da moça foi de mestre.

— Eu também sou mestre, e veremos quem ensina melhor.

Ficaram os dois nisto; e o cego pôs mãos à obra.

Devemos prevenir o leitor que a causa em semelhantes mãos, se não se podia dizer decididamente ganha, pelo menos ficava arriscada; e o que vale é que do outro lado estava a comadre.

O velho começou o seu trabalho em regra; logo na primeira noite que foi dar lição à casa de D. Maria começou por fazer cair a conversa a respeito do roubo da moça, e deu a entender que sabia do caso e conhecia perfeitamente quem tinha sido o autor dele. D. Maria disse também que sabia quem era, e que até o conhecia muito. O velho sorriu-se, deixando apenas escapar em tom de dúvida um significativo-Qual...-D. Maria franziu o sobrolho, levantou os óculos e exclamou:

— Pois então pensa que eu ando atrasada nestas coisas?... Ora deixe-se... Sei quem foi, e sei muito e muito bem. É um pedaço de mariola com cara de sonso, que só me há de morar em casa se eu algum dia for carcereira.

— É isso tudo, mas a Sra. D. Maria não conhece o homem, digo-lhe eu, que também ando ao fato deste negócio todo.

— Bem sei, bem sei... mas olhe que eu também soube de parte muito certa...

e não há nada mais fácil do que ver quem está enganado... Diga lá o senhor quem foi.

— Oh! não! isso nunca, exclamou apressadamente o velho pondo-se em pé; nada, eu cá não quebro segredo de ninguém.

D. Maria remexeu-se toda de aflição; e por mais que instasse nada pôde arrancar do velho que, para fazer melhor o seu papel, foi-se logo retirando, dando assim a entender que queria cortar a conversa naquele ponto.

Quando mais não tivesse conseguido, o velho tinha ao menos lançado a dúvida no espírito de D. Maria a respeito do fato, que era para ela a pedra de escândalo contra José Manuel.

CAPÍTULO XXVIII

TRANSTORNO

Enquanto todas estas coisas se passavam, um triste sucesso, e da mais alta importância, veio alterar a vida de Leonardo, ou transtorná-la mesmo: o compadre caiu gravemente enfermo. A princípio a moléstia pareceu coisa de pouca monta, e a comadre, que foi a primeira chamada, pretendeu que todo o incômodo desapareceria dentro de dois dias, tomando o doente alguns banhos de alecrim. Nada porém se conseguiu com a receita; o mal continuou. Recorreram então a um boticário conhecido da comadre, que juntara ao seu mister, não sabemos se com permissão das leis ou sem ela, o mister de médico.

(continua...)

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