Por Visconde de Taunay (1871)
Como desvairado, ordenou, então, o Coronel que, à luz de fachos imediatamente na mata vizinha se abrisse uma clareira, para onde seriam os coléricos transportados e abandonados. Ordem terrível de dar, terrível de executar; mas que, no entanto (forçoso é confessá-lo), não provocou um único reparo, um único dissentimento. Puseram os soldados, logo, mãos à obra como se obedecessem a uma ordem comezinha; e — tão facilmente cede o senso moral ante a pressão da necessidade — colocaram no bosque, com a espontaneidade do egoísmo todos estes inocentes condenados, os desventurados coléricos, muitos deles companheiros de longo tempo, alguns até amigos provados por comuns padecimentos.
E, coisa que a muitos parecerá não menos espantoso os próprios coléricos, desde os primeiros momentos, e sem que fosse necessário recorrer a subterfúgios, resignadamente aceitaram este último golpe da fatalidade.
Contribuíam provavelmente as dores do horrível mal para a indiferença dos pacientes; ou talvez também a idéia do repouso substituído às torturas dos solavancos da marcha; mas acima de tudo, este desprendimento fácil da vida, próprio dos brasileiros e que deles, tão depressa, faz excelentes soldados. Apenas pediam todos um favor: que lhes deixássemos água. Dominados por tantas e tão funestas impressões nós nos reuníramos em torno da barraca do tenente-coronel Juvêncio. Chamaram-nos a atenção os seus gemidos: acabara a moléstia de o saltear também! Já estava irreconhecível com a voz demudada e sinistra. Foi o nosso primeiro ímpeto correr à barraca dos médicos; dela voltávamos quando junto a nós, reboou uma detonação, seguida de vários tiros das sentinelas inimigas. Era o soldado de plantão do quartel-general que se suicidara; horríveis caimbras havendo-o atacado, delas acabava de se libertar.
Ocorreram todos estes ruídos sem que o tenente-coronel Juvêncio desejasse conhecer-lhes os motivos e até sem que parecesse percebê-los. Tomara-lhe, pouco a pouco, a agitação o caráter de frenética alucinação.
Nós mesmos, ao seu lado, estafados pelo cansaço, esgotados por tantos sobressaltos, mal conseguíamos combater um sono acabrunhador, pejado de pesadelos, de desalento e carnificina.
Durou a noite inteira a trasladação das vítimas, até os primeiros albores do dia. Neste momento de agonia dos míseros abandonados, veio o velho guia Lopes, de regresso, desde a véspera, da excursão às suas terras anunciar a morte do filho, de cuja moléstia já nos noticiara. Tremia-lhe a voz, mas conservava uma atitude calma. "Meu filho morreu, disse ao Coronel, e desejo sepultá-lo em terra minha. 1: um pequeno favor que por ele, e por mim, solicito; sua vida, como a minha, pertencia à expedição. Deus, que tudo determina, salvou-o varias vezes da mão dos homens para tomá-lo hoje".
Tudo, a cada momento, se entenebrecia em torno de nós. Nada mais digno de inspirar a simpatia e a compaixão do que o aspecto do Coronel, depois da ordem que dera, e se cumpria enquanto começávamos a marchar.
Pesar, remorso? perturbação de espírito, na apreciação dos motivos que o haviam feito agir e parecia estar a debater intimamente, quando já as suas ordens estavam no domínio dos fatos consumados? Certo é que, pálido como um espectro, parava, para ouvir, como involuntariamente.
Por mais silenciosos e tristes houvessem sido os preparativos, não foi sem gritos e ruídos estranhos ao ouvido e cuja causa assombrava o espírito, que chegou o momento do abandono. A todos nós foi intolerável. Deixávamos entregues ao inimigo mais de cento e trinta coléricos, sob a proteção de um simples apelo à sua generosidade, por intermédio destas palavras escritas, em letras grandes, sobre um cartaz pregado num tronco de árvore: "Compaixão para com os coléricos!"
Pouco tempo após nossa partida e já fora do alcance da vista, veio um estrépito de viva fuzilaria apertar-nos os corações. E que clamores indescritíveis, então, ouvimos! Ninguém de nós ousava olhar para o companheiro!
Pelo que depois nos contou um dos pobres abandonados, salvo milagrosamente, vários enfermos (ele não sabia bem se houvera ou não geral chacina) se haviam soerguido convulsamente e, reunindo todas as forças, corrido para nós. Nenhum, porém, conseguira atingir-nos, devido à fraqueza física ou à crueldade do inimigo. Nossa coluna tinha, contudo, demorado a marcha, instintivamente, como à sua espera.
Já os nossos armões estavam sobrecarregados de novos enfermos, de permeio com os convalescentes; e o corpo de exército, tomado do mais sombrio desespero, vencera, apesar do cansaço, duas léguas! A necessidade do repouso deteve-o à margem de volumoso ribeirão que atravessava as dependências da estancia do Jardim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. A Retirada da Laguna. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17499 . Acesso em: 28 fev. 2026.